terça-feira , 22 agosto 2017
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[Crônicas Atormentadas] Capítulo 1: Sob a Sombra da Forca

Dedicado a J.M. Trevisan, que também gosta de ladinos.

O primeiro corvo avistou a Praça de Malpetrim. Era a praça da forca e trombetas soavam ecoando por entre a turba de pessoas. Era um número pequeno de pessoas para ser sincero, Eiliv esperava mais, entretanto boa parte de suas vitimas estavam ali. Um pequeno palco abrigava um cadafalso ainda vazio. As trombetas pararam e ele soube que era a hora, agarrou com toda força uma pequena perola negra em sua mão. O guarda que vigiva-lhe deu-o um empurrão para que subisse num palanque assumindo o lugar onde amarriam-lhe a corda no pescoço. A forca suspensa balançava ao vento.

HQ 5ANa multidão ele reconhecia Szalek, seu antigo colega de aventuras. O maldito havia lhe imobilizado com magias necromanticas e entregado ele às autoridades, após o feitiço vil do necromante Eiliv não conseguia mexer um músculo de tão fraco. Sua condenação foi rápida com um de seus comparsas atuando como informante. O tribunal de reino de Petrynia levou apenas 2 dias para decidir dependura-lo na forca, no entanto Eiliv contava com um trunfo. O delegado gordo vestindo um casaco e cartolas pretos estufou seu peito enquanto lia um papel em suas mãos:

– Caríssimos cidadãos de Malpetrim, nos reunimos nessa ocasião para testemunhar a justiça de Khalmir! Condenado pelos crimes de infâmia, heresia, roubo, desacato e pirataria; Executaremos Eiliv Atlovalan pela sentença de enforcamento, que o seu corpo seja suspenso até que ele morra, que os deuses tenham piedade de sua alma imortal, e que seus crimes nunca sejam perdoados.

As pessoas na multidão vaiavam e gritavam ofensas e acusações. Alguns olhavam com dó o pobre homem de cabelos longos castanho claro que tinha poucos instantes de vida.

– Que diga o condenado suas últimas palavras.
– Hyninn sorri aos românticos! – gritou ele para o povo hostil.

HQ 7E

O cadafalso abriu-se e o cabelo longo de Eiliv subiu aos ares quando ele caiu. Seu olhos azuis permaneceram abertos fitando a multidão. Com o ultimo ar que restava em seus pulmões gritou enquanto encarava um homem magro e alto de cabelos tão longos quanto os seus:

– Vingança!

Após alguns espasmos musculares ele ficou suspenso por mais alguns instantes fazendo um lento e vagaroso movimento pendular, sincronizado com o ranger da forca. A multidão fazia alguns comentários em voz baixa e começava a se dispersar. Uma pequena risada abafada foi ouvida pelos guardas próximos ao cadáver. Subitamente ele foi engolido pela própria sombra. Simples assim. Desapareceu em meio ás sombras do palanque em que estava dependurado. As pessoas começaram a gritar e rapidamente o que não passava de um bando de pessoas entediadas e maldosas se transformou numa turba correndo. O homem de cabelos longos e olhos verdes rapidamente conjura um feitiço e se teleporta para longe, sumindo com uma fumaça arcana. A guarda começa a se espelhar numa busca pelas proximidades pelo fugitivo morto, enquanto o delegado boquiaberto examina a forca vazia.

Uma nuvem de fumaça anuncia sua chegada ao refugio. O homem que havia se teleportado apanha um pedaço de giz e começa apressadamente a desenhar um grande circulo de símbolos complexos no chão de pedra. Enquanto rabisca as runas na pedra ele murmura palavras sagradas e profanas. De repente, antes que ele pudesse terminar o seu encanto, as sombras da sala ficam escuras e a luz das vela já não parecia tão eficiente. De dentro da sombra do mago sai Eiliv com o pescoço quebrado e um sorriso. Sua pele está pálida e fria, seus olhos abrigam um azul da cor de uma chama extremamente quente.

– Não devia ter feito isso Szalek, eu conheço seus refúgios.

O homem deu um passo para traz e começou a conjurar algo, mas foi estrangulado pelas mãos do morto vivo antes que conseguisse falar.

– Arlac nunca vai te perdoar. – ele murmura por entre os dentes sem ar.
– Morra traidor! – sua voz era sem vida e áspera.

HQ 6B

A sala a sua volta era o covil de Szalek e ficava em tuneis subterrâneos dentro da cidade. Havia um pequeno altar com serpentes no canto da sala. As paredes estavam repletas de mapas e pedaços de papel com textos que acompanhavam sua trajetória desde Triunphus até Malpetrim. A família Pennor havia se esforçado para acabar com sua vida. O problema todo era que sua amada Arlac pertencia a uma família nobre, dona uma farta produção de tabaco nas colinas halflings ao redor de Triunphus. Enquanto ele era um pobre e mentecapto aventureiro que mesmerizava a dama com histórias fantásticas de suas conquistas e infortúnios. Eiliv agora estava morto, e a possibilidade de um final feliz (que já era improvável) estava além dos portões da vida e da morte.

Era estranho pensar que estava morto. A pérola de Tenebra que usou fora presente de Vladislav, um distante amigo com quem se correspondia por cartas a alguns anos. Sua percepção estava alterada, tudo parecia levemente turvo e desbotado. Seu pensamento não era mais afetivo, e embora Eiliv não soubesse, sua capacidade de amar em breve tornar-se-ia apenas uma obcessão infundada. Com alguns gestos e palavras Eiliv fez sua sombra se dividir em duas. A metade mais negra se levantou e emitiu um sibilo sinistro.

sombra– Erga-se projeção de meu passado, vá até a mansão Pennor em Triunphus e diga a Arlac que estou bem. Ela receberá notícias de minha morte, diga que são mentiras infundadas e que continuarei mandado sombras todas as noites para contar-lhe histórias de ninar. Diga que ainda a amo e que isso nunca mudará, mas que devido a um infortúnio não poderei mais vê-la por um tempo. Estou amaldiçoado por uma benção semelhante à que prende ela na sua cidade.

Eiliv recolheu todos os papeis da sala e partiu para não mais voltar, com uma unica parada em seu próprio covil antes de abandonar sua estada na cidade dos heróis. Provavelmente já havia adivinhos da coroa de Petrynia no seu encalço e ele precisava de proteção, sabia que sua nova condição o tornava vulnerável ao poder dos sacerdotes e, pelo que pode observar, seus inimigos eram adoradores de Szass. Não havia tempo a perder, desapareceu novamente em meio às sombras e abandonou a estrada. Rumou para Curanmir, onde seu irmão Naej morava.

A viajem era longa e Eiliv roubou um cavalo da guarda para vencer o chão mais rapidamente, seu deslocamento pelo reino de Tenebra só era capaz de cobrir pequenas distâncias. Preferiu não utilizar-se da estrada, optando por um caminho um pouco mais demorado ao longo da costa. As testemunhas em seu caminho viam apenas um cavalo galopando sozinho desgovernado.
Foi quando o cavalo tropeçou lançando Eiliv ao chão com um pesado golpe. O equino assustado levantou-se e correu para longe. Eis que um pórtico de sombra toma forma em frente dele como se uma porta estivesse abrindo em pleno ar. Dela sai um halfling com feições maldosas que fecha a porta atrás de si, girando a maçaneta cúbica e arrancando-a da estrutura em que se firmava. O retângulo negro desaparece em pleno ar, deixando o diminuto humanoide sozinho no descampado com Eiliv. Ele se levanta as pressas e espana suas vestes cinza, abre a boca para interrogar o misterioso individuo, mas é interrompido.

– Ora, ora o que temos aqui! Alguém que se acha muito esperto a ponto de enganar a própria morte! Tens minha total admiração rapaz, muito bem planejado.
– Quem é você? Se estiver aliado à família Pennor saiba que escolheu o destino errado. – disse Eiliv já com a mão indo de encontro com o cabo de seu Machado Mágico.
– Calma calma rapazote. Não estou aqui para desafia-lo em combate. Sou um enviado de Hyninn, seu deus. Ele soube de sua mirabolante peripécia e me enviou ao seu encontro para ajudá-lo.
– Louvado seja, mas não posso me dar ao luxo de acreditar nas suas palavras tão estupidamente.
– Muito sensato de sua parte, mas não pretendo prover maiores explicações, sei que no desespero em que se encontra vai tentar de qualquer jeito. É apenas questão de tempo até os adivinhos de Thyatis contratados pelos Pennor te encontrarem. Toma! – e jogou o pequeno cubo para Eiliv.
– O que é isso? – e apanhou o objeto no ar com destreza.
– Um esconderijo, adeus.

Num piscar de olhos o pequeno desapareceu. Nosso protagonista encontrava-se novamente só, sem nem mesmo cavalo. Ele buscou abrigo nas sombras das árvores mais próximas, conseguia mover-se num leve balanço que lembrava uma dança. Fazendo isso dobrava a luz a sua volta e enviava seus raios para dento de sombras projetadas pelos galhos no alto, deixando mais oculto do que alguém invisível.

Esse dom recebia o nome de mimetismo e foi ensinado a Eiliv por Aghbar, o magnífico, um famoso escapista que trabalha no circo dos irmão Thiannate. Buscou abrigo no tronco mais próximo e parou para analisar o pequeno cubo metálico.

a torre cuboEra preto e composto pelo que pareciam ser vinte e seis cubos menores atrelados a um mecanismo central permitindo movimentos em torno do eixo. Nas facetas externas possuíam pequenas gravuras de letras e símbolos. Estava tudo embaralhado e era claro que a intenção de quem o criou era que deslizando os cubos se forma-se alguma coisa inteligível. Antes de qualquer coisa Eilv fez uma breve analise das letras, de fato era possível forma palavras, havia muitas vogais. Procurou atentamente por armadilhas nas arestas, ou agulhas ocultas.

Encontrou e desarmou-as. Orou para Hynnin para que mostrasse se havia alguma magia oculta ali e pode sentir em seus dedos a confirmação. Frustrado após inúmeras tentativas de giros para reordenar o cubo, pegou suas ferramentas e desmontou e montou-o novamente. Escrito ao redor dele lia-se: “Sem roubar não sou bom que nem era meu tio avô”. Ao colocar a última peça, o objeto começou a desdobrar-se em cubos cada vez maiores até que um cubo de oito metros de lado com uma porta entalhada em sua frente, num pisca de olhos ele ficou invisível, revelando apenas um retângulo negro que era sua porta, com o objeto preso feito maçaneta. Entrou e estava seguro.

O HOMEM SEM SOMBRA

Pele cinza clara e rente aos ossos, Eiliv possui o pescoço quebrado de maneira assustadora. Seus olhos são azuis num tom elétrico e seu corpo possui diversas tatuagens negras que se mexem (são sombras). Seus cabelos são longos e ficaram brancos depois de um tempo em sua nova condição. Tem uma estatura mediana e parece estar magro de uma forma não muito saudável, usa roupas leves elegantes e um manto preto de forro cinza. Nas suas costas repousa um grande machado dependurado por uma alça com entalhes abissais, fruto de um furto a um lich poderoso.

Eiliv possui uma história muito longa desde que nasceu em Collen, seus pais eram humanos pacatos e normais, sem muita ambição. Tem dois irmãos, o mais velho é um mago e o mais novo um clérigo, ambos filósofos. Acabou virando um meio morto-vivo usando uma pérola mágica da deusa das sombras em Malpetrim, quando forjou sua morte sendo condenado à forca, uma tramoia para enganar seus inimigos que o colocaram nessa situação. Está em busca de um suposto livro mágico que lhe permitirá mudar o passado e impedir a morte de Arlac, seu amor. Eiliv envia todos os dias uma sombra para visitar a princesa Arlac na mansão Pennor, que fica em Triunphus, e contar a ela histórias para dormir. (A “nobre dama” é uma clériga de Tenebra e entende a língua das sombras).
Otimista e simpático ele se encontra desiludido com sua vida de aventuras e busca uma aposentadoria assim que conseguir reverter a maldição de Thyatis sobre Arlac. Não oferecerá sua ajuda sem algo em troca e adora perseguir grupos de aventureiros em suas aventuras e roubar os tesouros finais para si.

Em combate Eiliv procura se esconder nas sombras, move-se para fora delas e desfere golpes com seu machado e depois se retornando para baixo das sombras usando seu mimetismo e o talento Ataque em Movimento. Caso sinta-se ameaçado irá desaparecer nas sombras usando mimetismo, passo das sombras para longe, ou fuga.

Ficha para Tormenta RPG

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Eiliv: humano meio morto-vivo (Ladino 3/Swashbuckler 3/Dançarino das Sombras 4)
NM; Médio, desl. 9m; PV 102; CA 28 (+5 nível, +9 Destreza, +3 Autoconfiança +4);
Ataques:
Machado Sorvedouro de Vidas +12 (1d6+9+2 níveis negativos x3)
Adaga de Arremesso OP +18 (1d6+7+veneno paralisante CD 18).
Habilidades: ataque furtivo +4d6, encontrar armadilha, sentir armadilhas +1, evasão, maestria em perícia (Acrobacias, Furtividade e Percepção), estilo de combate (esgrima), mimetismo, visão no escuro, ilusão sombria (1/dia), esquiva sobrenatural, salto das sombras (1/dia), invocar sombra (1/dia), aparência inquietante, sadismo;
Fort +10, Ref +15, Von +7, imunidade a frio, saúde inversa, redução de dano 10/mágico;
For 14, Des 24, Con -, Int 14, Sab 13, Car 18.
Perícias & Talentos: Acrobacias +25, Atletismo +17, Atuação(dança) +19, Cavalgar +22, Enganação +24, Furtividade +26, Iniciativa +29, Ladinagem +22, Obter Informação +24, Ofícios(venenos) +17, Percepção +16, Sobrevivência +16; Usar Armaduras (leve), Usar Armas (simples e marciais), Usar Escudos, Reflexos Rápidos, Foco em Perícia (Furtividade), Esquiva, Acuidade com Arma, Mobilidade, Sorrateiro, Reflexos em Combate, Ataque em Movimento, Liderança, Devoto (Hynnin, Detectar Magia), Fuga Equipamento: Sorvedouro de Vidas, Torre Portátil Invisível, 4 Adagas obra-prima envenenadas.

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W. Malàvolta
Porto Alegrense desde 1989 quando chocou neste chão e ficou por ali, cursou arquitetura na UFRGS... mas trocou para economia que era mais perto. Gosta de brincar com tudo que se crie: escreve, pinta, desenha, inventa, molda, compõe e vive. Boêmio, poeta, meio-dramático, amador, cheio de transtornos e contradições.