quinta-feira , 27 abril 2017
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Doença – Um Conto de Ítalo Guimarães

A noite estava agitada, a música alta e a bebida estavam deixando aquela balada cada vez mais agitada. Débora estava em uma das áreas VIP’s da casa noturna “Evil Queen”, sentada em um daqueles enormes e acolchoados sofás, com um cosmopolitan na mão e sendo cortejada por um rapaz, aparentemente mais novo que ela.

Ela, vestida com uma saia colada preta, um pouco acima dos joelhos, um blusinha vermelha tipo regata bem justa ao corpo, fazendo-a aparentar ter mais busto do que realmente tinha, um salto alto preto e uma maquiagem bem atraente embelezando o rosto. Ele, com uma camisa polo preta, calça jeans também escura, um tênis esportivo, cabelos arrepiados e pele lisa.

Estavam a um bom tempo conversando sobre seus cotidianos, ela já estava pronta para dar um passo a mais do que a conversa entre eles ali, mas aparentemente, ou ele era muito tímido, ou muito lerdo. Suspirou e soltou:

– Olha, o papo está ótimo, mas eu cansei de falar, você vai me beijar logo ou não?

O rapaz ficou corado com aquilo, não esperava uma mulher com tamanha atitude, mas rapidamente se recompôs e beijou Débora de forma sensual. “Meu Deus, beija tão bem assim e demorou porquê?”, pensou ela enquanto se deliciava, e se excitava com o beijo.

O resto da noite foi bem mais fácil de lidar, depois do primeiro passo, o rapaz ficou mais solto socialmente e ambos puderam aproveitar melhor a balada, chegando até a trocar telefones. Quando já era hora de partir, ambos com álcool no sangue e na mente, estavam dando o “ultimo beijo” quando ele se pronunciou:

– Que tal a gente continuar essa festa num canto mais reservado? – ele estava com os olhos vidrados nela e um volume se sentia nas regiões mais baixas.

Ela abriu um sorriso um tanto ébrio e malicioso, chegou no pescoço dele, dando leves mordidas e pressionando seu corpo contra o dele, fazendo a pressão naquele volume ser melhor sentida em seu corpo:

– Adoraria… Mas prometi a minha amiga que cuidaria de seu filho amanhã para ela sair com um cara. – disse ela, fazendo uma cara de deboche no final da frase.

– Não tem problema, eu te levo amanhã cedo… Vem comigo vai? – disse ele agarrando-a pela cintura.

– Huuuum… Não posso porque… – três buzinadas ao longe são ouvidas, dentro do carro, várias mulheres, todas amigas de Débora – … Elas vão me levar para lá direto.

– Tá dando desculpa para fugir de mim.
O olhar dela se torna como a de uma lince mirando seu alvo, num rápido movimento, colocou uma das mãos dele na altura de seu íntimo e colocou a sua mão na dele:

– Repito… Querer eu quero meu lindo… – deu um selinho nele e se afastou com um manhoso empurrão completando -… mas eu preciso ir.

Virou de costas e saiu andando, com seu rebolado atraente, deixando o rapaz ali sózinho.

As amigas no carro faziam uma tremenda algazarra pois viram toda aquela cena, perguntando o porque dela não ter ficado com o rapaz e aproveitado a noite:

– Não tava tão afim hoje, queria só dar uns beijos e me divertir… Mas não nego que perderia algumas horas com aquele gato. – respondeu ela, mordendo o canto da boca.

O resto da noite foi uma farra entre as amigas e depois de tanta diversão, foi deixada na porta de casa. Seu celular vibrou, seu aplicativo de mensagens instantâneas havia dado um toque de que haviam novas mensagens.

Entrou em casa, tirou o salto, dando graças a Deus e sentindo um alívio ao sentir o piso frio de sua casa, foi até a bolsa, pegou seu celular para deixa-lo carregando no criado mudo ao lado de sua cama e olhou a mensagem, era de Jonas, o rapaz que passou a noite se beijando.

Só confirmando se você não me enganou no número de telefone… Boa noite gata.

Ela abriu um sorriso bobo e se deitou, caindo rapidamente em um sono profundo.

Na manhã seguinte, acordou com uma forte dor de cabeça, sentia seu mundo girar e seu estômago revirar. A ressaca bateu pesado em seu corpo e em sua mente. Naquele dia, decidiu não fazer nada, obviamente que mentiu sobre cuidar de algum filho de uma amiga qualquer, ficou de molho naquele sábado nublado em sua casa.

No decorrer daquele dia, sentiu uma coceira na parte do lábio superior e uma dor incomoda na região do pescoço:

– Só me falta aquele homem ter me passado herpes… Tava bom demais para ser verdade.

Terminou seu dia colocando as séries televisivas que assistia em dia, com muita pipoca, preguiça, dor de cabeça e água, muita água.

No domingo de manhã, assim que abriu os olhos, lembrou-se que tinha uma reunião importante na segunda cedo com alguns acionistas da empresa em que trabalhava e que seu projeto era a pauta principal. Ela tinha tudo na ponta da língua e sabia de todos os documentos ali, mas não custaria nada repassar tudo aquilo.

Se levantou e foi ao banheiro para fazer sua higiene matinal, mas levou um susto quando viu sue reflexo. Na região onde coçava estava levemente inchado e tinha um amontoado de pequenas bolinhas brancas, como um conjunto de espinhas muito próximas e em seu pescoço havia uma vermelhidão enorme cobrindo todo o lado direito.

As duas regiões doíam ao toque e ela sentia a pulsação do sangue no lábio. Quis ir correndo para o hospital, mas manteve a calma e depois de um café da manhã reforçado, pois sabia que poderia demorar no hospital, foi para o pronto socorro ver o que era aquilo com um especialista.

Lá, ao contrário do que pensou, foi atendida rapidamente por um médico que fez os devidos exames:

– E então doutor? O que é isso?

O médico, olhando os papéis e analisando os resultados, respondeu:

– Bem, aparentemente é alguma alergia, talvez algo que tenha comido ou bebido durante esses dias.

– Mas então, não é herpes?

– Não senhorita Débora, não é herpes, pode ficar tranquila, tome esses anti inflamatórios e qualquer coisa, retorne aqui para analisarmos melhor.

A mulher voltou para casa, com dor no pescoço e nos lábios mas levemente tranquilizada. Chegou em casa e repassou seu serviço, viu que estava tudo bem e passou o resto do seu domingo assistindo TV.

Um caso lhe chamou a atenção, uma notícia de que nos últimos três meses, mais de seis jovens mulheres estavam desaparecidas e que a polícia estava investigando o caso, todas as mulheres desaparecidas foram vistas pela última vez em alguma balada nos mais diversos cantos da cidade. O policial que estava sendo entrevistado pedia para tomarem cuidado em casas noturnas e boates para evitar qualquer tipo de situação parecida.

“Ainda bem que eu não saí com aquele rapaz, já pensou se eu viro estatística?”

Na manhã seguinte, queria chorar ao se olhar no espelho, não pensou duas vezes em seguir para o médico que lhe atendeu anteriormente, cobrindo a boca com um pano branco de sua casa e o pescoço com um cachecol.

Lá, havia apenas uma pessoa na sua frente e as duas esperavam o doutor chegar. Assim que o homem colocou os pés no consultório, Débora foi correndo até ele:

– Doutor, por favor, preciso urgente de sua ajuda!

– Se acalme senhorita Débora, se acalme! – disse o homem levantando as mãos e se afastando educadamente de Débora – Eu já vou lhe atender, basta esperar que eu atenda a senhorita Jamile antes e depois cuidaremos da senhora.

– Mas doutor, o senhor não está entendendo, eu…

– Senhorita Débora, só posso lhe passar na frente se for um caso de emergência.

Ela, num acesso de desespero e fúria, tirou o pano que cobria sua boca fazendo o médico cair para trás diante de tamanha visão grotesca.

Um amontoado de bolhas purulentas, que escorriam uma fina linha daquele liquido amarelado misturado com sangue pela sua bochecha, um contraste de cores entre aquele amarelo doente dentro daquelas bolhas, com um roxo escuro, quase putrificado na pele, seu pescoço estava em carne viva e constantemente escorria um liquido fétido de tonalidade esverdeada e cristalina.

Rapidamente ela foi internada e passou por uma série de exames e a dor que sentia era tamanha que, não sabe por quanto tempo, ficou anestesiada e dopada.

Certo dia, acordou, como se tivesse acabado de sair de uma longa noite de sono, um tanto desnorteada e zonza. Uma enfermeira, com uma prancheta e alguns papéis, estava ao seu lado e percebeu que Débora acordou, foi correndo para fora da sala e minutos depois volta com o doutor da clínica:

– Débora, você está bem? – questionou o médico, puxando uma cadeira e sentando ao lado dela.

Com uma voz fraca e um tanto rouca ela respondeu:

– Sim, estou… Não… Não sinto mais dor.

Ela levou a mão até o lábio e tocou um curativo que estava no mesmo local daquela massa purulenta:

– Que bom, acredito que agora que acordou, em no máximo quarenta e oito horas terá alta.

– Mas… O que houve? O que era aquilo? – disse passando a mão no pescoço e sentindo a faixa cobrindo ele todo.

O Médico suspirou e pegou dois envelopes pardos em uma gaveta ao lado da maca:

– Este envelope é seu, uma lista de medicamentos e um encaminhamento para cirurgia plástica, pois vai precisar reconstruir parte do seu lábio… – o olhar de Débora era de espanto e horror, saber que sua boca ficou deformada, deixou-a em choque. O médico prosseguiu com seu discurso – … já este, assim que você sair daqui, quero que entregue para a polícia.

– Para a polícia? Mas, por quê?

O médico suspirou mais uma vez, olhando para o chão, tentando encontrar palavras para dizer o que viria de uma forma que não a assustasse tanto:

– Débora… o que causou todo esse problema com você, foi devido a uma bactéria bem peculiar.

– Tá, mas o que a polícia tem a ver com isso?

– Essa bactéria só pode ser encontrada em cadáveres, e esses cadáveres já têm que estar a algum tempo em estado de decomposição.

Débora começou a chorar, a sentir nojo dela mesma, sentia um comichão por debaixo da gaze e gritava achando ser ainda aqueles vermes devorando sua carne aos poucos.

As quarenta e oito horas de observação serviram para ela aceitar a ideia do que ocorreu e planejar tudo que faria, assim que saiu do hospital, foi para a delegacia, mesmo que indo contra a ordem médica de esperar mais vinte e quatro horas em repouso na própria casa. Lá, contou tudo para o delegado e então deram início a caçada.

Dois dias depois, conforme combinado entre ela e o rapaz que havia beijado naquele sábado, ela foi para um parque encontrá-lo, as duas da tarde perto do chafariz.

Ela recebeu uma mensagem no celular escrito “cheguei, olha para trás” e ao se virar, viu ali aquele mesmo belo rapaz que a cortejou tempos atrás, ele estava sorridente, já ela, com um olhar vazio e expressão fria. Numa rápida emboscada, policiais surgiram e o algemaram, declarando prisão por necrofilia e com um mandado de busca em sua casa.

Lá, encontraram um porão, onde o corpo de seis jovens foram encontrados, todos com certo grau de decomposição, em posições fetichistas, algemadas, ou amarradas, usando máscaras de couro e diante delas, uma câmera digital posicionada, pronta para gravar qualquer insanidade que aquele homem quisesse fazer.

Imagem de Capa: Cyberpunk. Night Club by dsorokin755

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Ítalo Guimarães
Escritor
Amante de cachimbos, poker, blues, rpg e escritor, Ítalo é autor de "Poker com o Diabo" e outro títulos vindouros.
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