quinta-feira , 23 novembro 2017
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Eu me lembro

Eu Me Lembro – Um Conto de Ítalo Guimarães

Me lembro como se fosse ontem da nossa discussão, nossas duras palavras, nossas acusações e xingamentos, naquela noite tumultuada e chuvosa.

Me lembro das palavras baixas que proclamei e dos gestos bruscos que fiz, alguns vasos da casa e o espelho da sala foram quebrados; como fiquei possesso com o que me disse aquela noite.

Me lembro de me acusar de traição sem provas, me lembro de me acusar de mentiras por algo que não menti e que depois te provei que o que eu disse era verdade, mas como sempre, nada do que eu dizia adiantava, você já tinha sua opinião e nada naquele momento lhe faria mudar.

Me lembro da dor que causamos um ao outro, dizendo, quase que simultaneamente, “EU TE ODEIO”, naquela sala mal iluminada. Ouvir aquilo foi demais para os dois, pois no fundo sabíamos que aquilo não era verdade, mas ouvir aquilo da boca de quem se ama, doeu demais, foi como ter colocado o cano de uma arma no peito um do outro e atirar a queima roupa.

Me lembro do barulho da rua, das gotas caindo fortemente no asfalto, fazendo um chiado alto, um ruído branco que, ao invés de acalmar e relaxar, deixava-nos ainda mais irritados.

Me lembro de te deixar gritando e sair porta a fora, sem ao menos dizer para onde ia, e me lembro que depois que quase quebrei a maçaneta da porta, de tão forte a pancada, a única coisa que ouvi era aquele chiado da chuva forte, que dessa vez me reconfortava. Caminhei pela passarela do jardim até o portão e, depois, a rua vazia se tornava minha e da chuva, apenas. A roupa já colava em minha pele e pesava em meu corpo, as gotas que caíam sobre mim ardiam a cada impacto, mas eu não ligava, era melhor aquilo do que ter que encarar aquela situação de novo.

Me lembro de caminhar tranquilamente, sem me importar com a tempestade ou com os flashes dos relâmpagos, que antes me incomodavam, fazendo eu apertar a sua mão mais forte toda vez que via um, mas que dessa vez não tinha efeito. O barulho dos trovões junto com a pesada chuva fazia-me ouvir nada além do ruído e dos estrondos.

Me lembro da dor que senti a cada passo que dava naquela rua, lembrando cada palavra dura, lembrando cada insulto, lembrando daquelas três malditas e falsas palavras: “eu te odeio”. O mais correto agora seria dizer “eu me odeio”. Me odeio por tudo que te disse sem pensar, me odeio pelo fato de ter deixado a raiva tomar conta de mim e eu agir como um animal, eu me odeio por ter dito que te odiava.

Me lembro de poucos carros passarem por mim naquela tempestade, afinal somente alguém que não batia bem da cabeça sairia de casa naquela tempestade e ficaria vagueando por aí. Por um momento sorri, pois não era a única pessoa louca naquela região.

Me lembro de andar por ruas em que a linha d’água já fazia correnteza, e que eu andava justamente contra ela, colocando meus pés sobre a água e desmanchando aquela coisa uniforme que era aquela imagem de água correndo.

Me lembro dos meus pés encharcados, de meus sapatos ensopados e dos meus pés pesados. Por quanto tempo caminhei? Olhei para os lados e não sabia onde estava, as casas eram escuras e meras silhuetas a minha volta, as luzes dos postes iluminavam mal e porcamente o local, com apenas um feixe de luz alaranjada, que mal conseguia iluminar o chão ao tocá-lo. Estava perdido, física e emocionalmente.

Me lembro de sentir uma vibração em meu bolso, e no mesmo momento a chuva ficar ainda mais forte. Era catastrófico aquele fenômeno, e sabia que, no dia seguinte, os noticiários iriam passar o dia falando das desgraças causadas pela chuva. Peguei meu celular no bolso e vi que estava encharcado assim como eu estava, a tela que iluminava meu rosto mostrava trinta ligações perdidas e mais de cem mensagens não lidas.

Me lembro de ficar parado naquele local, sentindo a chuva açoitar meu corpo, enquanto lia o que me mandou – palavras de desculpa, de perdão e de arrependimento, palavras até antes nunca ditas, demonstrando um sentimento enorme, que me fizeram sentir que era algo intenso, mas subliminar e recíproco.

Me lembro de digitar algo na tela do celular, pronto para lhe enviar e ao olhar para o lado, ouvir um trovão que veio antes do clarão dos raios.

Me lembro de cair no chão e soluçar, tendo meu corpo revirado pelas mãos de uma silhueta encapuzada, tirando de mim a carteira e o celular.

Me lembro de sentir o calor do meu corpo esvaindo-se aos poucos, uma mancha rubra crescendo em meu peito e se espalhando pelo tecido molhado.

Me lembro de tremer no chão, sentindo o frio chuva tomar-me por dentro enquanto tinha a visão do seu sorriso diante dos meus olhos.

Me lembro de você ao meu lado, vendo meu corpo nu sobre uma chapa fria de aço, olhando para mim com os olhos inchados e as bochechas molhadas, olhando para mim com um buraco no meio do peito.

Me lembro de me cobrirem com um plástico e depois meu mundo escurecer com o caixão de madeira.

Me lembro de você na delegacia, na sala de espera, com o meu celular miraculosamente recuperado, no mesmo estado que deixei antes do acontecido.

Me lembro de te ver chorar em nosso quarto, deitada em nossa cama, ao ver a tela do celular, naquele programa de mensagens instantâneas, com a mensagem “Eu te amo” na caixa de texto, esperando apenas o botão de enviar ser apertado.

Imagem de Capa: Cry Me a River by andrewfphoto

 

Ítalo Guimarães
Escritor

Amante de cachimbos, poker, blues, rpg e escritor, Ítalo é autor de “Poker com o Diabo” e outro títulos vindouros.

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