quarta-feira , 13 dezembro 2017
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Mãe de Misericórdia - um conto de Ítalo Guimarães

Mãe de Misericórdia – Um conto de Ítalo Guimarães

Sentado sob a torre de vigilância, olhando para o horizonte, vendo nuvens negras e carregadas se aproximando, pegou seu maço de cigarros e sacou um, que estava todo amassado, acendeu-o  e observou o campo de batalha lá em baixo.

Uma chacina acontecera recentemente, um embate contra o exército inimigo que custou uma baixa considerável na guarnição, homens feridos no chão agonizando e gritando de dor, sendo recolhidos pela parca e diminuta equipe médica daquele exército, aqueles que estavam em um estado muito complicado, eram salvos de uma maneira cruel, porém eficaz, os médicos e outros soldados libertavam os muito moribundos da dor e da agonia com a morte.

Tudo a sua volta ali cheira a fogo, pólvora e morte, tudo era cinza e sem vida. Com tanto tempo naquela guerra, acabou adquirindo traumas, pesadelos e alucinações. Sonhava a noite com aquelas visões aterradoras da guerra, estava louco e queria a morte, mas jurou para si e para sua família, que não se renderia e lutaria até que a morte viesse buscá-lo. Viu todos os seus amigos da quadragésima sétima infantaria serem mortos em batalha, mas ele, se manteve vivo, sendo o último sobrevivente. Viu novos grupos chegarem para dar reforço para aquela luta, criou novos amigos, criou novos laços e, mais uma vez, eles foram rompidos, também viu estes novos amigos serem mortos em batalha de forma fria e inescrupulosa.

Já estava a mais de dois anos ali, atuante na guerra em seu posto de vigília como atirador de elite e nesse meio tempo, acabou ganhando uma nova amiga, uma mulher que só ele via e só ele ouvia, uma figura feminina e materna que fazia-o aliviar toda a pressão da guerra e toda a dor que sentia, evitando que ele sucumbice a loucura plena, chamava-a de “Mãe de misericórdia”.

Recostado sobre a parede, com seu fuzil de longo alcance ao seu lado e com metade do cigarro jpa queimado, sentiu um arrepio passar pela nuca e uma pressão delicada em seu ombro, sabia que não estava mais sozinho na torre:

– Dia difícil o de hoje…

A voz daquela mulher era calma, serena, aveludada e acalentadora, tinha o dom de dissolver todo o stress e tensão dentro daquele soldado, como a de uma mãe embalando seu filho para dormir.

– Sim, tivemos muitas baixas hoje, nosso inimigo está investindo cada vez mais forte sobre nós. Estamos todos matando e morrendo em uma escala que não da para compreender.

– É o seu trabalho… foi convocado para isso, não está fazendo mais do que o seu trabalho.

Ele deu uma risada de deboche e deu mais um trago em seu cigarro:

– Quando eu vim pra, eu achava que estava vindo para fazer o certo… Mas agora, bem, agora não tenho tanta certeza do que estou fazendo e me pergunto, por que estou aqui?

– Você está aqui para matar, você é um soldado de guerra e foi treinado para tal.

– Que Deus me perdoe pelo que estou fazendo…

– Meu querido… –  ela se sentou ao lado dele, colocando a cabeça em seu ombro e a mão em seu peito – … aqui é um local desolado e sem a graça divina, Deus não pode te ouvir aqui.

Ele chacoalhou a cabeça em negação:

– Não posso pensar no que já fiz…

– Uma coisa é certa, quando isso acabar, você voltará como herói da nação.

– Você me diz o que é certo, mas eu te direi a verdade, isso aqui é uma causa perdida, sem esperança de retorno, fomos mandados para cá como porcos para o abate, e a cada momento estão mandando mais porcos para esse matadouro infernal.

– Pelo menos você é sincero…

– De que vale a sinceridade aqui, onde em todo lugar a morte está próxima e só existe crueldade?

Nada mais foi dito. Por alguns instantes, eram apenas ele e ela, naquele posto do vigia, até que um forte barulho de trovão ecoou por todo o local, a chuva estava cada vez mais próxima e aparentando fazer um estrago enorme naquele campo de batalha, ela se recolhe ainda mais no peito do soldado clamando num tom levemente tristonho:

– Isso não é um bom sinal…

– Não mesmo, o terreno ficará lameado, de difícil locomoção, além de claro, a chuva cobrir com água os buracos no chão causados pelos canhões, uma armadilha natural perigosa.

– Seus inimigos estarão encrencados na sua mira, tudo ficará mais fácil para você agora.

– Não só meus inimigos, mas também meus aliados, temos homens no terreno lá em baixo, não há lugares para se esconder e procurar cobertura lá em baixo. Rios de sangue vão fluir e escorrer junto com água da chuva que está por…

Antes mesmo que terminasse de falar, o barulho estridente de pesadas gotas sobre o teto começaram a ecoar, e no segundo seguinte, uma cortina d’agua se fazia diante dos seus olhos, gotas quase do tamanho de projéteis despencavam do céu com força,encharcando o solo e o chão de onde estava o soldado e sua louca companhia.

Os soldados que estavam no terreno baixo largaram o que estavam fazendo e foram para dentro do quartel, muitos corpos mortos foram deixados no chão e muitos moribundos ainda agonizavam no chão de terra, sentindo a gelada e pesada chuva cair sobre seus ferimentos e suas dores, trazendo o alívio para uns e  mais dor para outros.

Os dois ficaram em silêncio durante horas e de tempos em tempos, ele puxava um cigarro. Estava quase dormindo emabalado pelo barulho da chuva e pelo calor do abraço daquela mulher, quando viu alguns pontos no horizonte, quase que camuflados nas nuvens negras que cobriam o céu, se levantou apressado e pegou seu rifle de longo alcance, mirou naquela direção para ver melhor o que era aquilo. Viu helicópteros com armamentos pesados indo em sua direção, apontou a mira para o solo e viu uma enorme infantaria de soldados armados com os mais diversos tipos de fuzis marchavam de forma sincronizada como um bloco único sobre a chuva.

Seu coração começou a disparar, tirou o olho da mira e olhou para baixo, vendo todos aqueles corpos no chão e se lembrando da pouca guarnição de soldados que tinha ali em baixo. Sentiu o toque macio sobre o ombro novamente, seguido daquela voz quase angelical:

– A sua hora negra chegou… Preparado para mais esta investida?

– A última investida você quer dizer…

– Ouvi isso muitas vezes de você já.

O Soldado vai até o fundo da cabine, aperta o botão do alarme e o grito das sirenes se misturam com o chiado da chuva, bradando e chamado seus soldados para a guerra. Lá em baixo, soldados começavam a correr e tomar seus lugares nas linhas de batalha:

– Acho que é um adeus então. – disse ele olhando para sua esquizofrênica companhia.

– Sim… sua tão chegada hora está próxima, mas nunca se esqueça de quem você é…

– Eu sou apenas um soldado solitário lutando em uma guerra sangrenta e inútil. Não sei o que estou combatendo, contra quem ou pelo que estou lutando. Farto de toda a matança e do fedor de morte, pensei que fosse pelo dinheiro, para fazer minha fortuna, agora não estou tão certo disso, pareço apenas ter perdido meu caminho, mas agora, parece que finalmente encontrei meu destino.

Ele se posicionou, colocou seu rifle no local certo para o combate e aguardou que o manto negro viesse e lhe ceifasse, como já fizera com todos os seus amigos.

Imagem de Capa: WWII Scene by ClaudioBergamin

Ítalo Guimarães
Escritor

Amante de cachimbos, poker, blues, rpg e escritor, Ítalo é autor de “Poker com o Diabo” e outro títulos vindouros.

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  • Jorge Augusto

    Imergi direto na cena… Italo sempre mandando benzasso nos contos. Parabéns!!