sábado , 22 julho 2017
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Minha Natureza – Conto de Ítalo Guimarães

A pequena criatura andava apressado. Movia suas oito pernas de forma cadenciada e rápida, deixando um rastro pontilhado na terra úmida e fofa em que corria. Estava atrasado e não podia perder tempo para o seu compromisso.

Sua carapaça era escura e rústica, suas garras eram enormes e totalmente desproporcionais ao corpo, tinha duas pinças, grossas e horrendas, feitas para segurar sua presa diante dos seus olhos de forma brutal.

Sua cauda, com as mesmas propriedades da carapaça, estava baixa e somente sua ponta destoava do corpo — um gomo arredondado, negro, terminando em uma ponta fina como uma agulha, quase toda polida, manchada com tons de amarelo e verde, efeito esse causado pela presença de sua mortal peçonha.

Seu caminhar fazia as folhas úmidas farfalharem, e suas pernas soavam como pequenas gotas caindo na terra molhada.

Sua corrida foi interrompida com a presença do grande rio que cortava aquela floresta, normalmente com uma correnteza calma, mas que, agora, devido à última chuva, parecia com a boca de uma besta irracional: fétido, com águas escuras e com a forte correnteza soando como um urro raivoso, de tão forte que estava.

Ficou preocupado, pois estavam lhe esperando na outra margem, e a passagem que comumente usava estava coberta pelas águas bestiais.

Estava quase declarando desistência, quando olhou para o lado e viu uma calma figura contrastando com a tormenta diante dele. Suas patas, traseiras e dianteiras, eram finas e desengonçadas, terminando em dedos ligados por uma membrana fina e semitransparente, deixando transparecer algumas finas veias. Já seu corpo era roliço, gordo, disforme, com uma pele que parecia lama viva, de cor marrom, manchada em tons mais escuros e brilhantes, com uma bolsa de ar que inflava e coaxava em um tom mórbido, e seus olhos eram amarelos como o pus de uma ferida infeccionada. Foi nesta criatura disforme que o aracnídeo viu sua salvação.

Aproximou-se, de forma discreta, e saudou o bizarro anfíbio:

– Olá, senhor Sapo, como vai?

A criatura à margem do rio, antes distraída, pensando em nada, saiu de seu transe ao ouvir seu nome e olhou para o lado, se assustando ao ver aquele monstro escuro próximo dele. Deu um pequeno salto para o lado e ficou de frente para ele, sentindo seu pequeno coração pulsar de forma acelerada.

– Por favor, se acalme, não estou aqui para lhe fazer mal… – disse o animal peçonhento.

– Se não quer me matar ou me atacar, o que quer?

– Desculpe te tirar de seu sossego, mas preciso de sua ajuda.

– Minha… ajuda?

– Sim, tenho tarefas a realizar do outro lado, mas é impossível atravessar para a outra margem pois a passagem está coberta e eu não sei nadar.

– E o que eu tenho a ver com isso?

– Bem, como o senhor sabe nadar tão bem, achei que poderia me levar em suas costas e me deixar do outro lado.

– Está maluco?! Você é um escorpião, vai me picar!

Dando uma irônica risada, ele respondeu.

– Oras, e por que faria isso? Nós dois afundaríamos se isso acontecer, seria suicídio. Então, que tal?

O senhor Sapo refletiu sobre aquilo e concordou.

– Ok, suba em minhas costas, te levarei ao outro lado.

O escorpião, com aqueles finos traços que sustentavam seu corpo, andou e subiu nas costas do frio anfíbio, que sentiu subir por suas costas um calafrio, como a se própria morte estivesse a lhe acariciar, e começaram a travessia.

A água estava gelada, e aquele cheiro fétido era ainda maior. A escura e acinzentada corrente estava incansável e violenta, mas aquelas finas membranas e a experiência que o sapo tinha facilitava um pouco naquele desafio.

Em alguns momentos, um pouco de água passava pelas costas do nadador, fazendo com que as pernas do escorpião se cravassem naquela viscosa pele, quase como uma agulha que tentava adentrar aquele corpo.

As pernas do anfíbio se moviam de forma desajeitada, ele sentia seus finos músculos retesados e duros, tamanho o esforço que estava fazendo para se manter em seu trajeto. Por mais que o escorpião fosse leve, sua presença era incômoda, sentia como se carregasse o próprio Demônio nas costas, mas não podia se concentrar muito naquele ser escuro.

Já haviam atravessado metade do trajeto e a linha de terra da outra margem ficava cada vez maior e mais próxima. Confiante de que ficaria tudo bem, o desengonçado nadador deixou de prestar atenção em seu tripulante e focou-se em completar o percurso, e foi nesse momento que aconteceu o pior.

Sentiu nas laterais de seu flácido rosto uma pressão aguda e localizada, que esticava um pouco sua pele, e, em seguida, uma fina, porém agressiva, pontada, que perfurou a fina pele e os músculos de sua cabeça.

Ao tentar entender o que estava acontecendo, viu as enormes garras negras prendendo-o e a cauda de seu aterrorizante passageiro erguida, com uma gota avermelhada na ponta de seu ferrão. Uma segunda investida foi feita, e uma terceira, uma mais violenta que a outra.

O anfíbio nadador sentiu aquela peçonha correr pelo seu corpo, queimando suas veias e atrofiando seus músculos, fazendo-o perder a força e a consciência aos poucos. As garras em suas laterais cortavam a sua carne, e mais golpes com a cauda foram dados, atingindo o resto do corpo.

Não havia mais reação — os músculos estavam moles e inúteis, e apenas a consciência lutava em se manter. Olhou para cima e viu os vermelhos, flamejantes e doentios olhos de seu algoz o encarando, com o que aparentava ser um sorriso sádico em sua face.

– Sabia que não… não devia ter confiado em você… Agora, nós dois seremos arrastados pelo rio e seremos mortos… Por… por que… por que fez isso?

As garras forçaram a cabeça do sapo mais para cima, quase quebrando suas costas e fazendo-o ficar mais perto daqueles insanos olhos.

– Me desculpe, meu caro, mas essa… é a minha natureza.

Ítalo Guimarães
Escritor
Amante de cachimbos, poker, blues, rpg e escritor, Ítalo é autor de "Poker com o Diabo" e outro títulos vindouros.
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