segunda-feira , 21 agosto 2017
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Nós Que Aqui Estamos Por Vós Esperamos

É chegada a Hora Morta, a hora do meu desespero, a escuridão se faz presente e palpável, quase palatável. Sinto a dor e a opressão se aproximando, e antevejo mais uma história macabra surgindo ante meus olhos estupefatos.

Nós que aqui estamos por vós esperamos”, não sei aonde eu vi ou ouvi esta estranha frase, não me lembro sequer se foi em um sonho ou em algum filme que eu havia visto, ela surgiu em minha mente como um rompante e tem me atormentado desde então.

Alguns conhecidos meus chegaram e me dizer que esta frase está gravada em um portão de um antigo cemitério nos arredores de Londres, outros me disseram que pode ser fruto de minha própria imaginação e que eu não deveria gastar minhas energias nisso. Mas o fato é que junto a estes bizarros dizeres várias imagens surgem em minha cabeça, são visões aterradoras e negras e isto tem feito com que eu perca minhas noites de sono, que já são bastante agitadas, com macabras imagens de campos devastados e seres desformes vagando por este mesmo campo.

Não há nada que eu possa usar para fazer um paralelo com o que vejo, nem mesmo os mais horrendos locais de batalhas das guerras de outrora chegam aos pés do que me é apresentado nesta projeção de minha mente. E junto dela, a estranha frase, que dita por vozes incorpóreas, surge em minha cabeça. Isto chegou ao ponto de prejudicar minhas funções corriqueiras o que me levou a realizar por minha própria conta uma investigação. Utilizei como ponto de partida a pista que me foi dada por um amigo que me disse que esta frase se encontrava gravada em um antigo cemitério nos arredores de Londres. E tão logo consegui organizar meus negócios embarquei para a velha capital inglesa em busca de uma explicação para o que estava me perturbando.

Não foi nada fácil encontrar informações sobre o velho cemitério, todos os guias turísticos e bibliotecas pareciam desconhecer a existência de algum Campo Santo na cidade que possuía gravado em seus portões a estranha frase. Excursionei por todos as Necrópoles da cidade, mas em nenhuma encontrei o que procurava e já estava quase desistindo de minha busca, quando um estranho homem, apareceu diante de mim dizendo que tinha a resposta para minha busca.

Inicialmente não confiei muito naquele estranho homenzinho franzino, mas havia algo em seu olhar que me fez mudar de ideia e resolvi encontra-lo no horário e local estabelecido por ele. O local, uma região de Londres mal frequentada e bastante perigosa mesmo durante o dia era ainda mais inseguro nas altas horas da noite escura, mas não fui incomodado por nenhum dos bêbados ou prostitutas que infestavam as ruas e becos imundos daquele lugar infecto, chego a arriscar que eles nem mesmo pareciam notar minha presença ali junto a eles.

Mas ali naquele lugar, estranhamente eu me sentia em “casa” aquilo me era familiar e até mesmo chagava a me atrair, dirigi-me ao local que o homenzinho havia marcado comigo e lá chegando percebi que o mesmo não se encontrava ali, decepcionado e um pouco bravo comigo mesmo, pela minha ingenuidade em acreditar em alguém que não conhecia, já estava indo embora quando ele apareceu. Não era mais o franzino homem de meia idade que eu vira anteriormente, agora era um homem de grande compleição física, olhos negros e voz cavernosa, trazia junto de si um estranho artefato que de início não pude distinguir o que era. Desnecessário dizer que aquilo me perturbou bastante, mas eu já estava ali e iria arriscar, o homem se aproximou de mim dizendo que tinha as respostas para o que eu procurava e pediu que eu o seguisse sem questionamentos ou medo, nada ali poderia me ferir se eu ficasse ao seu lado.

Entramos por um beco escuro e lamacento, até mesmo os habitantes daquele lugar fétido pareciam evitar o lugar, a luz não parecia penetrar ali e nem mesmo o som era ouvido. Não era um beco longo, ou pelo menos parecia, meu desconhecido guia ia a frente silente, e alheio aquela escuridão que permeava a ruela, ele apenas se limitava a olhar para trás para verificar se eu o estava seguindo e quando ele constatava que sim, esboçava um sorriso e seguia adiante. As coisas começaram a ficar estranhas, ou mais estranhas se assim preferirem, quando no final do escuro beco deparamos com um pesado portão de ferro, era um grande portão já carcomido pelo tempo, tomado pela ferrugem e no alto lia-se a tão famigerada inscrição. Não é preciso dizer o quão admirado e estupefato eu fiquei diante do que estava vendo – “Então realmente existe!” – pensei. Eu estava diante daquilo que estava me consumindo haviam meses, e ao ver tal frase tive uma estranha sensação de que eu já a havia visto, tive a impressão de que eu já estive neste lugar, seja lá qual lugar era.

O homem, retirou do estranho objeto que ele carregava uma chave tão antiga quanto o portão, abriu e me deu passagem. Disse que só poderia me acompanhar até ali, ele era apenas o porteiro, e que a partir daquele ponto eu estaria só em minha busca. Fiquei apreensivo no início, mas o medo foi sendo aos poucos substituído por uma curiosidade que impelia-me a entrar em estranho e desconhecido lugar. Tão logo adentrei o cemitério o pesado portão atrás de mim foi fechado e a escuridão foi substituída por uma pálida luz, esta luz emanava de um sol vermelho sangue, mal dava para ver o caminho que estava a minha frente, mas segui adiante.

Era uma Necrópole esplendorosa, os túmulos e jazigos eram belos e antigos, nunca tinha visto nada semelhante em nenhum cemitério que visitara anteriormente, as estátuas pareciam vivas – as vezes chego a suspeitar que estavam mesmo vivas – A luz pálida do sol vermelho emprestava ao local um aspecto ao mesmo tempo lúgubre e belo, e eu me sentia em casa ali. Comecei a caminhar a esmo pelo lugar, a princípio apenas observando com interesse alguma lápide ou túmulo, outras demorando-me na análise de alguma estátua. Elas eram horríveis se vistas de perto, anjos distorcidos, rostos pútridos feições de sofrimento e pesar, mas eu não me sentia desconfortável, eu sentia-me familiarizado com aquilo que estava testemunhando.

Após um tempo que não pude marcar, analisando as estátuas, túmulos, minha atenção foi atraída para um caminho ainda mais misterioso, parecia me levar ao centro da Necrópole. A luz que era pálida, ali se mostrava ainda mais opaca e quase extingue, nem mesmo a luz da lamparina que o homem me emprestara parecia iluminar os meus passos. Não sei por quanto tempo caminhei naquele lugar o tempo não tinha a mínima importância e quando cheguei ao centro do imenso cemitério eu tive o vislumbre daquilo que mudou tudo que eu acreditava. As vezes chego a estremecer quando me lembro do que vi e senti, as vezes até mesmo tento negar a experiência pela qual passei, mas as evidências não deixam dúvidas, e sei que por mais estranhas e macabras possam parecer, aquilo que vivi foi real e me atormenta até hoje, já no fim da vida.

Quando me deparei no que parecia ser o centro do cemitério, um coro de pessoas, se é que posso chamar aquilo de pessoas, entoava apenas a frase que me era familiar, todos ali pareciam alheios a minha presença e nada parecia perturba-los naquele coro estranho, enquanto alguns entoavam ininterruptamente os dizeres outros dançavam uma estranha dança, homens e mulheres trajando farrapos velhos e sujos, alguns copulavam, outros se mutilavam e se agrediam, outros choravam e gritavam em desespero. Fiquei observando aquela cena dantesca não sei por quanto tempo, eu estava ao mesmo tempo hipnotizado e enojado com o que via, mas não era capaz de sair daquele lugar, eu estava preso.

Comecei a temer por minha vida, se é que eu ainda estava vivo, mas nada poderia me tirar daquele torpor que tomava conta de minha alma de meu ser. No meio daquela dança macabra, no meio daquele festim maldito, uma bela Dama surgiu, ela trajava uma túnica tão negra quanto a noite, talvez mais escura, ela saiu do meio daquela assembleia e se dirigiu a mim, ela era a única que dava conta de minha presença ali e parecia contente. Ela se aproximou e tirou sua túnica exibindo seu corpo escultural, com suas frias mãos tirou minhas roupas e ali mesmo naquele chão sujo nos amamos. Eu nunca havia tido uma mulher como aquela, fui transportado em êxtase a lugares jamais sonhados por ninguém e no momento do gozo, mesmo tomado por um fogo ardente que consumia minha alma eu vislumbrei o imenso campo de batalha de meus sonhos.

Vi as almas torturadas e que pediam por uma clemencia que jamais alcançariam, vi os algozes que se regozijavam torturando as pobres vítimas, vi a bela Dama sentada em um trono de ossos distorcidos observando tudo, tinha em seu olhar alguma coisa de satisfação. Em meu êxtase vi também que eu estava ao seu lado, eu via tudo e também me satisfazia, fui tomado por uma sensação de prazer e desespero ao mesmo tempo. Não estava suportando mais aquelas visões e com um grito que espantaria até mesmo as Banshees irlandesas eu me libertei daquela visão macabra.

Não havia coro, não havia Dama de Negro, não havia sequer cemitério, eu estava encolhido em um beco sujo e pútrido de uma região desconhecida de Londres, atordoado eu segui em direção ao hotel que estava hospedado e lá me dei conta que estive ausente por quinze longos dias. Paguei a conta e fui embora.

Já se passaram anos desde esta experiência macabra que tive, a princípio eu disse a mim mesmo que aquilo tudo fora fruto de alguma droga que me fora dada, ou de algum delírio ou febre. Mas a terrível verdade veio à tona quando notei uma pequena marca em meu antebraço direito, uma ampulheta e uma foice pequenas quase imperceptíveis e que ao serem tocadas davam me um desconforto imenso. Até hoje, depois de anos dessa macabra experiência, eu ouço também o coro dizendo “Nós que aqui estamos por vós esperamos” e estremeço de prazer e medo ao me lembrar do êxtase que senti ao amar a misteriosa Dama de Negro…

João Lopes
Contista em Rolando Dados
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