terça-feira , 22 agosto 2017
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O Beija-Flor e os Goblins – Um Conto de André “Oneiros”

O velho mago vinha andando na frente com sua esvoaçante capa roxa com bordas e desenhos em dourado, enquanto seus dois novos companheiros discutiam e se alfinetavam poucos metros atrás. O Sol já estava se pondo e o dia inteiro foi assim, exatamente como o anterior, e a paciência do arcanista estava se esgotando.

Ele havia prometido a Mognar, um amigo muito próximo do rei, que levaria até o reino vizinho, uma poção mágica, que ele mesmo tinha feito, para curar uma sobrinha do homem que havia caído sob uma doença ou maldição misteriosa. Claro que o velho conjurador tinha em sua mente que, fazendo isso, Mognar falaria ao rei, que poderia lhe dar uma recompensa melhor que as poucas moedas que seu amigo ofereceu, e o mago recusou, para parecer ainda mais benevolente.

Tudo muito bem calculado, mas ele precisava de mais gente para atravessar o Vale dos Três Dias, que tinha esse nome por levar três dias para atravessá-lo de ponta a ponta, que separava os dois reinos. Se ele fosse sozinho poderia ser pego por ladrões ou, quem sabe, dragões.

Ele foi até a taverna e ofereceu algumas moedas para quem o acompanhasse. Esse dois se ofereceram, apenas esses dois, ele não tinha escolha. Assim, andava na companhia desses tagarelas desde o dia anterior, antes do Sol nascer… não era fácil.

– Mas você pelo menos sabe contar, ou só aprendeu a bater mesmo? – perguntou o patrulheiro com cara de deboche ao bárbaro ao seu lado.

– Parem de discutir e façam silêncio. Estamos em terras hostis. – O mago retrucou com a voz rouca e segurando sua raiva no meio da garganta.

– Discutir? Não estamos discutindo, estamos conversando. O grandão me ama, né grandão?

– Cala a boca Beija-Flor. – Respondeu ríspido o bárbaro com uma carranca em sua fronte. Ele era quase o dobro do tamanho do patrulheiro e ainda maior que o velho mago.

– Ah, não! – Respondeu o patrulheiro acariciando com ternura um pequeno colibri com as penas verdes de brilho metálico. – Deixa o Twily fora disso. Ele está tranquilo e quieto aqui no meu ombro.

– Eu não falava do seu bichinho, falava de você mesmo, Beija-flor. Todo colorido, chama atenção de todos, mas na hora da briga tira uma agulha do bolso e nem faz cócegas em ninguém.

– Não faço cócegas em ninguém? Fale isso para aquele orc que encontramos ontem. E o Twily fez mais naquela briga que você.

– Dá pra vocês dois, por favor, calares as bocas? – interrompeu o mago dando bastante ênfase, e colocando um pouquinho de sua ira, no “por favor”.

Se fez o silêncio… por alguns minutos.

– Eu estava pensando aqui, por que tu tem um beija-flor de bichinho de estimação? – Começou novamente o bárbaro. O mago revirou os olhos e continuou sua caminhada em silêncio, mesmo querendo virar e matar os dois da forma mais dolorosa e demorada possível.

– Eu gosto dele, ué! Qual o teu problema com o Twily?

– Nenhum. Nenhum. É que já vi patrulheiros com os mais variados companheiros animais. Lobo, urso, águia, cobra, rato… mas beija-flor é o primeiro. Por que não uma galinha?

– Nem brinca com isso, cara! Galinhas são criaturas demoníacas.

– Rá! De onde você tirou isso?

– É sério! Eu ouvi uma história de um jovem elfo que começou a bater numa galinha, só por diversão. De repente, apareceram centenas de galinhas e começaram a arranhar e bicar o tal elfo até que sobrou apenas seu corpo jogado no chão.

– Hahahaha! Isso é mentira!

– Não é não! Dizem que aconteceu lá na cidade de…

– CALEM A BOCA! – o mago gritou sem nem olhar para trás.

– Ah, mas o Twily tem muitas vantagens. – recomeçou o patrulheiro.

– Hum?

– Ele é um pássaro, então voa. Ele é pequeno e pode passar por lugares que nenhum de nós alcança, além de ser quase impossível alguém o acertar.

– Hã?

– Eu tenho um truque. Consigo enxergar pelos olhos dele, então, ele pode parar no ar e me dar a visão aérea da batalha, o que me ajuda muito na estratégia. E, se tivermos um obstáculo à nossa frente, como aquela colina ali. – o patrulheiro pegou o pássaro esmeralda e o jogou no ar – ele pode sobrevoar e eu posso ver o que está atrás dela.

– Um rio e uma cachoeira. – respondeu o bárbaro sem dar muita atenção ao falatório.

– Como você sabe?

– Estou vendo no mapa, olha aqui.

– Uau! Você sabe ler mapas? Estou surpreso! Mas estou falando que se tiver alguma ameaça, alguma outra coisa lá atrás, eu só preciso me concentrar, olhar pelos olhos do Twily e… UAU!

– O que? O que tem lá? – Perguntou o bárbaro eufórico.

– Hmmmm… – respondeu o patrulheiro com um sorriso atrevido no canto da boca. – Uma donzela elfa tomando banho na cachoeira.

– EU QUERO VER! SAI DA FRENTE!!!

O homenzarrão saiu em disparada, empurrando o patrulheiro que caiu ao chão segurando uma risada. O mago olhou para trás com uma cara tão feia que parecia até a encarnação da própria Ira, fitou rapidamente o “touro desvairado” que vinha em sua direção e deu um passo pro lado, o deixando subir a colina como se nada fosse. Olhou para o patrulheiro que se levantava batendo a sujeira das roupas a gargalhar.

– Não há nenhuma elfa ali, há? – O mago questionou já sabendo a resposta.

– Não. O que tem ali é um…

– GOBLINS!!!

A voz trovejante do bárbaro ecoou pelo vale enquanto ele arrancava sua espada de duas mãos de suas costas.

– Não são goblins! – Respondeu o patrulheiro ao olhar mal humorado do mago que já se virara e subia a colina correndo o máximo que pudia. – É um goblin. UM goblin! Esse imbecil não sabe mesmo contar, é apenas um… GOBLINS!

O patrulheiro chegara ao lado do bárbaro e se surpreendera ao ver mais de uma dezena de pequenas criatura de pele musgosa, dentes amarelos e afiados, com fogo nos olhos. Um deles saia de trás de uma moita puxando pernas acima os trapos sujos que goblins chamam de roupa.

Em frações de segundo o patrulheiro arrancou uma flecha de sua aljava e, com o arco que já estava em sua mão, atirou contra a horda que corria em sua direção, acertando um dos monstros no olho e o fazendo defunto. O bárbaro, vendo aquilo, soltou um urro sobrenatural que pareceu provocar um pequeno tremor de terra.

Os goblins pararam assustados, dois deles correram desesperados e sem rumo, sumindo entre moitas espinhentas e enormes pedras cinzentas na margem do rio. O Patrulheiro olhou para seu musculoso companheiro e deu um sorriso desafiador, guardando o arco e sacando uma rapieira. – Que vença o melhor!

Os dois saíram desembestados colina abaixo, em direção aos seus incultos e fedidos inimigos quando, de repente, sentiram uma forte onda de calor às suas costas, que se aproximou rapidamente, passou entre os dois e iluminou a cena quase mais que o próprio Sol. Era uma bola de fogo que voou na direção, se chocando contra o grupo de criaturas verdes, explodindo, queimando e deixando vários corpos chamuscados ao chão soltando uma fumaça negra e fétida.

O silêncio reinou repentinamente, apenas se ouvia o crepitar de folhas secas e velhos gravetos queimando. Os dois homens olharam para trás e viram o velho mago guardando um grosso e velho livro numa bolsa por baixo de sua capa, olhando para eles com semblante sério de quem está se segurando muito para não xingar.

– Agora será que vocês dois podem, POR FAVOR, CALAREM AS BOCAS E FOCAR NA PORCARIA DA MISSÃO!?

Oneiros
Autor em Rolando Dados
Formado em Sistemas de Informação, amante de culinária e RPGista desde 1999, mestre desde... nem se lembra, conhecedor e pesquisador de sistemas de RPG, tem o estranho costume de falar sobre ele mesmo na terceira pessoa... o.O
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