quarta-feira , 24 maio 2017
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Cemitério dos Proscritos

O Cemitério dos Proscritos – Um Conto de João Lopes

Quem passa por uma estradinha de terra rumo a Serra da Bocaina próximo à Cruz das Almas, consegue divisar um muro em ruínas e tomado pelo mato. O local não chama a atenção e muitos que passam por esse caminho podem pensar que é apenas mais um muro construído por escravos como muitos que existem nessa região.

Mas para aqueles que gostam de explorar os recantos escondidos desses caminhos pouco percorridos, ao se aproximar desse muro, vão se deparar com um cemitério há muito abandonado e tomado pelo mato alto e em ruínas. Salvo algumas lápides que se projetam do mato como dentes de uma fera há muito adormecida e de um ou outro pequeno mausoléu, que ainda permanece “intacto”, o restante da pequenina necrópole apresenta um estado de completa desolação. A existência de um cemitério em um lugar tão inóspito causa estranheza, já que não existe nenhum povoado próximo, apenas casebres e sítios esparsos.

Os poucos moradores que residem próximo ao cemitério exibem uma grande resistência em falar sobre a pequena necrópole e alguns desses moradores ficam até mesmo agressivos quando se toca no assunto. E apenas alguns, depois de muita insistência, concordam em contar a história do pequeno e misterioso cemitério.

Construído no final dos anos de 1840, aquele cemitério era utilizado para enterrar os mais pobres, escravos, doentes, indigentes e toda estirpe de párias que após sua morte não seriam bem vindos a ter seu local de descanso eterno entre cristãos tementes a Deus. Por esse motivo a pequena necrópole passou a ser conhecida por todos como O Cemitério dos Proscritos. Ali, como já foi dito, eram enterrados todos aqueles que eram considerados párias e não mereciam estar entre os verdadeiros cristãos e por isso, desde o primeiro sepultamento, que era feito de qualquer maneira e sem nenhum religioso para encomendar a alma do morto, o local ganhou fama de assombrado e passou a ser evitado. Alguns “aventureiros” que entraram naquele arruinado cemitério, disseram ter a sensação de estarem sendo observados o tempo todo e que uma presença estranha os acompanhava durante a permanência no local.

Dentre as lendas que cercam aquele lugar existe uma que é sussurrada pelos poucos moradores que conhecem a história do pequeno cemitério, esses mesmos moradores sussurram que a coisa que caminha pelos túmulos ainda vive e que espreita todos aqueles que se arriscam a entrar naquele maldito lugar. Por se tratar de uma tradição oral, muito se perdeu no decorrer dos anos assim como alguns fatos foram aumentados pelo ignorante povo que reside nas redondezas.

A história “original” contada por um senhor, que após umas duas ou três doses de cachaça, se dispôs a contar o que ele sabia, o velho e simpático senhor me disse que essa história foi testemunhada pelo seu avô — agora falecido — e mais alguns outros companheiros de seu avô, que naqueles anos eram tropeiros.

Ele me contou que mesmo naquela época — anos 1860, aproximadamente — os viajantes evitavam passar perto daquele cemitério, devido a coisas estranhas que aconteciam ali durante a noite, alguns diziam que mesmo durante o dia havia algo ali que deixava todos que passavam próximos ao local apreensivos.

O velhinho me contou que durante uma noite, seu avô e seus companheiros passavam pela estradinha de terra indo em direção à Cruz das Almas, apesar de todos estarem com medo eles resolveram seguir adiante e passar pelo Cemitério dos Proscritos o mais rápido possível. Mas quando se aproximaram do lugar maldito, a tropa de burros que os acompanhava acabou ficando nervosa e muitos animais empacaram se recusando a ir a lugar algum, como os tropeiros não podiam e nem queriam abandonar os bichos, resolveram acampar no local, distante uns duzentos metros da entrada do cemitério e tiraram na sorte quem iria seguir viagem até a fazenda mais próxima para conseguir alguma ajuda com os burros empacados.

Os “sortudos” que foram incumbidos de encontrar ajuda foram o avô do velho senhor, mais dois outros jovens que o acompanhavam, enquanto outro ficaria no local vigiando os animais e a carga. O senhorzinho que me narrava a história, conta que quando seu avô mais os dois companheiros de viagem passaram em frente ao cemitério todos sentiram um medo sobrenatural e viram uma estranha luz emanando do centro do lugar, era uma luz amarela e opaca e o pavor tomou conta de todos. Segundo o idoso, seu avô e os demais acompanhantes tentaram correr, mas havia algo que os impedia e que os atraia direto para o centro do maldito cemitério.

Ele me disse que o mais jovem e audacioso dos tropeiros correu em direção à luz, desafiando o que quer que estivesse ali e antes que pudesse ser impedido pelos demais companheiros, o mesmo foi engolfado por uma neblina e a última coisa que foi ouvida foi o grito de desespero do destemido jovem. Apesar do medo e do receio, os outros amigos decidiram que não poderiam deixar o garoto entregue a sorte e correram para tentar resgata-lo.

Ao entrarem no cemitério, o velho senhor conta que os tropeiros viram o jovem ser atacado por alguma criatura invisível. Seu avô lhe contou que o homem, que fora capturado pela neblina, estava no ar e que gritos de pavor saiam de seus lábios suplicando por ajuda, mas os homens nada podiam fazer já que eles mesmos estavam tomados de medo. Após alguns minutos o jovem foi novamente engolfado por um denso nevoeiro e não foi mais visto. Os demais, agora livres do transe que os prendia, saíram daquele lugar o mais rápido que podiam, mas não sem antes olhar para trás, e o que eles testemunharam mudou suas vidas. O velho e simpático senhor se recusa a me dizer o que o seu avô viu naquele momento, apenas que era algo assustador e terrivelmente grotesco. Depois de me contar essa história o senhor se calou e foi embora para seu pequeno casebre.

Ninguém mais se dispôs a me contar o que era a tal criatura, ou a confirmar a história que acabei de ouvir, o receio desse povo em relação ao pequeno cemitério era bastante arraigado e muitos até evitavam falar no local, temendo que pudessem atrair o mal que lá habita. Como eu não consegui ninguém mais que se dispusesse a me contar as histórias sobre o lugar, eu mesmo faria uma investigação dos fenômenos que supostamente aconteciam ali.

O cemitério é pequeno e pelo fato de estar a muito tempo abandonado, o mesmo se encontra em ruínas e mal se distingue as lápides das pedras e árvores que tomam conta do local. Apesar disso, ainda se vê aqui e acolá algum túmulo ou “mausoléu” em melhor estado, e dentre estes um chama bastante a atenção.

É um sepulcro que se destoa dos demais jazigos, este é mais “luxuoso” — se por luxuoso pudermos entender o tamanho da sepultura — e apresenta um melhor estado de conservação, aliás, a tumba se apresenta perturbadoramente bem preservada e existem indícios de que alguém ainda toma conta daquele túmulo. Mesmo em bom estado o nome de quem está sepultado ali é ilegível, eu tive a impressão de que o nome de quem se encontrava neste mausoléu fora propositalmente ocultado, o que me deixou bastante curioso sobre quem poderia estar enterrado ali. A decadência que toma conta do lugar deixa quem o visita bastante apreensivo e com uma sensação de estar sendo observado a todo o momento.

Passei uma boa parte do tempo observando o estranho sepulcro, o mesmo era totalmente diferente das demais sepulturas que existiam na necrópole, aquela tumba era bem maior e era construída com pedras grandes e bem encaixadas umas nas outras, possuía também alguns itens de decoração, o que faltava nas outras lápides do cemitério. Dentre as decorações havia uma pequena estatueta, não consigo descrever a repulsa que tive quando me deparei com a escultura, ela se assemelhava a um anjo disforme com feições animalescas e nada semelhantes aos delicados anjos que encontramos em outras necrópoles mundo afora.

A estátua apresentava, além da face terrível, asas carcomidas e mãos cadavéricas, portava na sua mão esquerda uma ferramenta que se parecia com uma foice e em sua mão direita a cabeça de uma mulher em prantos. A criatura alada em sua feição animalesca demonstrava satisfação. Mas o mais perturbador, além da cena retratada na escultura, é que o “anjo” parecia que me observava e sabia de minha presença no local e que também sentia minha repulsa.

Afastei-me dali o quanto antes, já estava escurecendo e eu não desejava ficar naquele lugar estranho após o anoitecer. Quando estava saindo de lá, dei uma última olhada em direção ao mausoléu e tive a nítida impressão de que a estátua se movera e olhava diretamente para mim. Tomei isso como fruto de minha imaginação impressionada com o ambiente e rapidamente me retirei do local. Desnecessário dizer que não consegui pregar o olho durante a noite, e as poucas horas que conseguir dormir, foram povoadas de sonhos ruins com o estranho ídolo do Cemitério dos Proscritos.

O dia seguinte, eu ainda tomado pela curiosidade sobre a história do lugar, fui até a biblioteca municipal de Cruz das Almas, para tentar encontrar informações sobre a história do cemitério, mas para meu desgosto não encontrei nada, apenas algumas poucas palavras sobre o fato que o velho senhor me contara sobre seu avô, fora isso nada mais, não havia registro do mesmo nem na paróquia da cidade, e então pude perceber que a única maneira de se obter informações sobre o lugar era com os moradores próximos ou fazendo “pesquisa de campo”.

Mesmo temeroso, devido ao que eu vi ou pensei ter visto no dia anterior, eu novamente fui ao cemitério para tentar obter mais algo da história do local. E apesar do receio que tomava conta de mim, eu me sentia atraído pelo túmulo e pela imagem que o “enfeitava”, você, seja você quem for, não pode perceber o quão assustado eu fiquei ao notar que a estatueta apresentava outra disposição. Antes possuía uma feição grotesca e malévola, agora apresentava a feição angelical de querubins dóceis, mas ainda havia algo no olhar daquela estátua que incomodava, algo de cruel. Estupefato eu saí dali e fui a outro canto da necrópole, um lugar onde eu não poderia ver o nefasto ídolo.

Novamente ao me afastar do túmulo, dei uma olhadela para trás e pude perceber que o anjo de pedra me acompanhava com seu olhar maléfico, não havia dúvidas, aquela coisa realmente estava olhando diretamente para mim e sentia meu medo.

Um frio anormal começou a tomar conta do lugar, e junto dele uma estranha e densa névoa se formava em todo o perímetro do cemitério, o que era estranho já que o dia estava claro e quente. Percebi que talvez as histórias sussurradas pelos mais velhos que moravam perto dali eram muito mais do que simples folclore e que eu em breve faria parte desse folclore se não encontrasse uma maneira de fugir dali. A densa neblina envolveu todo o cemitério e impedia que eu enxergasse além de dois palmos à minha frente, era inútil, eu fora capturado.

Meu Deus! Existem coisas que realmente deveriam ficar ocultas aos nossos olhos, coisas que os homens não deveriam sequer imaginar sua existência.

Junto ao nevoeiro que tomava conta do lugar e o frio intenso que gelava meus ossos, eu ouvia gritos e vozes sinistras saídas da cerração. Eu não conseguia distinguir o que esse coro macabro dizia, mas era algo ruim, cruel e que desejava minha alma. Tentei correr, sair daquele maldito lugar, mas ao invés de encontrar a saída, deparei-me com o mausoléu e com a estatueta, que agora exibia feições demoníacas e zombeteiras, por toda minha volta pude perceber os espíritos dos proscritos que estavam sepultados nesse maldito cemitério e eles zombavam de meu medo, escarneciam de minha situação. A imagem se agigantava e tornava-se mais bizarra e terrível e encarava-me com seus olhos negros como o ébano.

Uma voz hedionda saída das entranhas do túmulo ecoou em minha mente — Nós que aqui estamos, por vós, esperamos!!! — Não sei dizer o que aconteceu depois, desmaiei e acordei apenas na casa do senhor José, o velhinho que me havia contato sobre seu avô.

Ele disse que estava de passagem pelo velho cemitério e que ouviu gritos e pedidos de socorro e, mesmo estando receoso, entrou no cemitério para me encontrar em posição fetal defronte ao estranho mausoléu, segurando a estatueta do “anjo” e balbuciando palavras que ele não conseguiu compreender, se o velho senhor testemunhou algo estranho ele não me disse.

Já se passaram alguns meses desde esses eventos estranhos, mas eu ainda não me recuperei e nem consigo esquecer a forma grotesca com que o demônio que habita aquela tumba me encarava e nem das almas dos proscritos que estão sepultados naquele lugar maldito, sem o descanso eterno, condenados a vagar eternamente e atormentar àqueles que se arriscam a adentrar seus domínios.

Porém, apesar de todo meu medo, eu tomei todas as providências que para quando minha hora chegar, eu seja sepultado naquela tumba, no Cemitério dos Proscritos.

João Lopes