quinta-feira , 23 novembro 2017
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O Colosso – Conto de Ítalo Guimarães

Havia a fortaleza e, dentro dela, o tesouro. Uma construção simples, porém aterradora, um grande cubo, com paredes rústicas marrons, cheia de veios e trincas, manchadas com os mais diferentes tons de vermelho, vermelho sangue… Aquela construção geométrica e imensa havia apenas uma entrada e uma saída. Uma enorme porta de ferro em formato triangular, branca e brilhante, quase hipnotizante.

A paisagem diante daquela fortaleza era mórbida, diversos corpos em vários graus de decomposição e máquinas quebradas, um verdadeiro cemitério sem covas, com mortos expostos a céu aberto dando ao lugar um ar pútrido e sombrio. Não havia vida ali, animais, árvores, grama… nada. Todos aqueles cadáveres orgânicos e mecânicos pertenciam à aqueles que tentaram pegar o tesouro dentro daquele cubo impenetrável e pagaram sua ganância com a vida.

Na frente da fortaleza, havia uma figura negra que contrastava com os portões alvos. Uma armadura colossal, fosca, com duas esferas verdes na face representando seus olhos, uma grande máquina, de aparência desajeitada, com inúmeros tubos em seus ombros expelindo uma fumaça amarelada. Nas juntas dos membros superiores e inferiores, emanava uma luz de dentro da besta metálica, a energia que o mantinha vivo, além das manchas rubras e escuras, havia uma pequena porta circular no centro de seu peito. Foi colocado ali pelo seu antigo mestre e dono do tesouro, para proteger a fortuna de qualquer um que não fosse ele próprio.

Bjorn e Crawler, vagavam pelas bibliotecas de todo o mundo, colhendo informações e conhecimentos para encarar o desafio do colosso. Bjorn era um ser truculento e careca, alto, com ombros largos e músculo visivelmente definidos, uma grande criatura humanoide, dotado de força e vigor, porém, de intelecto limitado. Já Crawler era magro e esguio, sua pele era quase albina e de um aspecto doentio, as veias de seu braço e pescoço eram nítidas, como pequenos fios verde-opacos pulsando por debaixo da fina e alva pele. Juntos trabalharam por um longo tempo em uma máquina, uma forma geométrica de vinte faces, azulada e cristalina de onde uma pequena luz avermelhada pulsava. O Cérebro Eletrônico era um projeto de Crawler para armazenar toda e qualquer forma de conhecimento, uma inteligência artificial com informação sobre os mais diversos assuntos do universo.

Depois de anos e mais anos colhendo e guardando informações, eles decidiram então encarar o abissal colosso que guardava os portões da fortaleza. O desafio era simples, ele fazia uma pergunta e esperava uma resposta, se não respondesse rapidamente, o intruso ia fazer parte daquela paisagem morta e nefasta. Durante a viagem dentro da nave em direção às terras da fortaleza, os dois se olhavam, tensos e nitidamente apreensivos:

– Quem irá lá encarar o monstro? – Perguntou Bjorn com uma voz baixa porém titânica.

– E isso difere? Com o Moira nada vai dar errado, aquelas portas irão se abrir num piscar de olhos após responder as perguntas. – Respondeu ironicamente Crawler.

– Ok, então eu irei… – Bjorn suspirou e como quem quer tirar uma angústia do peito, se dirige ao seu amigo – Crawler, somos parceiros a tanto tempo… quero te pedir uma coisa…

– O que seria?

– Quero que me prometa algo…

– O que quiser meu pequeno irmão. – Respondeu Crawler em tom cômico.

– É sério seu babaca… quero que me prometa que se der alguma merda lá com o gigante, que você não vai correr… que vai tentar também… que se aquela geringonça me matar, você não me deixará para trás e fujir como um covarde.

– Eu já disse que na…

Prometa Crawler! – gritou o gigante batendo com força numa pequena mesa.

Crawler suspirou e enfim respondeu:

– Está bem… eu prometo.

Após a promessa, nenhuma palavra mais foi dita entre eles. Aterrissaram a nave e Bjorn colocou um traje especial, uma veste cinza e um tanto folgada para ele, dando ao gigante de carne um aspecto de que ele era ainda maior, no centro dele, aquele cérebro artificial, Moira, a obra prima de Crawler, brilhava e pulsava aquela luz avermelhada:

– Vamos fazer um último teste nessa jossa… me faça uma pergunta.

– Ok… vamos lá… algo simples primeiro… Data do descobrimento das américas?

Neste momento, Bjorn é rapidamente assaltado em seu cérebro com a resposta da questão feita.

– 12 de outubro de 1492.

– Nome do deus da guerra Romano?

– Marte…

– Nome transcrito do elemento ouro na tabela periódica?

– Aurum… é… essa jossa está funcionando… vou indo nessa…

Bjorn seguiu para a saída da nave a passos vacilantes, ele suava frio e tinha uma sensação terrível em seu estomago, suas mãos tremiam levemente, sentia como se a própria morte estivesse ao seu lado, apenas esperando o momento certo para leva-lo. Se aproximou da fortaleza, que era protegida por aquela criatura de ferro.

– Alto… quem vem lá! – bradou o titânico ser metálico.

Bjorn era diminuto perto do gigante negro, era como um rato diante de um elefante… engoliu seco seu medo e angústia e respondeu.

– Sou o dono deste tesouro e seu mestre, vim buscar o que é meu.

– Responda minhas perguntas e verei se realmente é quem diz… – Um silêncio tomou o ar por alguns segundos, fazendo com que a tensão beirasse o palpável, então o colosso começou seu jogo – Qual o nome do detetive criado por Sir Doyle?

– Sherlock Holmes.

– x²+3x-5=0, o que é isso? – Perguntou o gigante de ferro mal ouvindo a resposta anterior.

– Uma equação de segundo grau e também o memorial de calculo para uma parábola. – E assim as perguntas foram seguindo e uma após a outra Bjorn, com a ajuda do cérebro artificial, respondia todas. Perguntas sobre, física, química, botânica, literatura, história, tudo… e cada uma delas era respondida com exatidão.

De dentro da nave, Crawler via tudo, seu estomago doía de nervoso, por uma ou duas vezes sentiu vontade de vomitar, esperando o resultado final daquele questionário maldito. Com uma mistura de medo e impaciência, não aguentava mais ouvir aquelas perguntas, queria logo ver aquelas portas abertas e carregar aquele tesouro tão cobiçado. Por fim, o colosso soltou a última pergunta:

– Sou o proprietário, mas todos usam mais do que a mim mesmo. O que eu sou?

Bjorn recebeu em seu cérebro a resposta daquela charada no mesmo instante e respondeu.

– Meu nome.

Após responder a pergunta da colossal máquina, a última coisa que viu foi um pequeno buraco se abrindo no meio do peito do ser metálico e uma luz sair de lá. Crawler viu seu amigo ser rasgado ao meio por uma rajada de energia, originada do centro da criatura, uma fina linha esverdeada, que rasgou Bjorn de baixo para cima, fazendo aquelas metades do truculento ser cair uma para cada lado, uma poça de sangue começou a se formar onde aqueles amontoados de carne caíram.

Crawler ficou atônito, não teve reação, foi tudo muito rápido, num instante, seu irmão estava vivo, no segundo seguinte, havia apenas dois pedaços de carne e músculos sem vida no chão. O desespero começou a tomar conta do esguio humano, sua mente foi assaltada pelo medo e pelo pavor. Tremia incessantemente e foi correndo, tropeçando e esbarrando em tudo no caminho para cabine da nave para dar ignição e fugir, mas ao sentar, ouviu a voz de Bjorn em sua mente.

“Você prometeu…”

Sentiu seu coração pular na garganta, não sabia se aquilo era seu inconsciente cobrando-o ou se seu amigo o estava assombrando. Respirou fundo, sentia as extremidades de seus dedos frias, seus olhos estavam mareados de lágrimas. A imagem de seu amigo morrendo se repetindo várias vezes em sua mente, misturado com o pavor que estava sentindo, fazia sua cabeça doer. Respirou fundo… e então se levantou. Saiu da nave e foi em direção ao gigante, andou lentamente sobre a terra seca e poeirenta, sentia a tensão nas costas e via aquela paisagem aumentar ainda mais o terror que já sentia. Parou ao lado de um dos pedaços de seu amigo e viu que o cérebro artificial estava também destruído.

– Alto.. quem vem lá?

– Sou… Sou o dono… sou o dono do mundo e exijo que me deixe passar!

A insanidade se fazia na cabeça de Crawler, ele mesmo não sabia o que acabara de falar e seu coração parou de bater por um instante, tinha a certeza que morreria naquele exato momento, mas ao invés disso, o colosso se dirigiu a ele:

– Qual a frase que a raposa disse ao príncipe em sua partida?

– Siga… Elefantes… Pesados…

Mais uma vez seu coração parou, cada segundo era torturante diante daqueles olhos verdes, a cada palavra, sentia a morte tocar sua face, mas estava vivo, é como se o ceifador brincasse com ele antes de leva-lo.

– Cite os 16 tipos de cachimbos mais usados…

– Por que navegar sob velas negras, se o sangue tomou o mar?

E assim foi durante alguns minutos, cada pergunta que o algoz de seu amigo fazia, ele respondia de forma errada e sem sentido. Sentia todas as veias do seu corpo pulsarem de forma violenta sobre a pele, sentia que ia enfartar de tanta tensão, mas mesmo assim seguia com as respostas sem nexo. Não entendia como nem por que… mas aquilo o manteve vivo e após responder a ultima pergunta, o gigante disse:

– Pode entrar.

O mecânico ser se dirigiu à porta branca e a empurrou, fazendo um barulho quase que ensurdecedor de ferro rangendo e após aberta, a porta revelou uma enorme pilha de ouro. Crawler ficou paralisado diante de tamanha beleza, aquilo dentro das paredes da fortaleza reluzia em diversas cores, tinha várias formas e tamanhos. Ele passou pela porta e começou a rir insanamente dentro do lugar, aquilo que muitos tentaram e todos falharam, agora era dele, a maior riqueza do mundo, o sentimento de poder e de arrogância tomou o lugar do pavor e do medo.

Ele sentia cada fria moeda, cada reluzente joia em seus dedos finos e as colocava em seus bolsos, jogava as moedas para o alto e se deitava sobre os amontados de ouro e prata sob ele, depois de alguns minutos de contemplação e êxtase, refletiu sobre o acontecido enquanto cia seu reflexo em uma moeda de prata polida.

– Por que? Por que mesmo errando as respostas ele me deixou entrar?

Continuou deitado naquela pilha de tesouros incontáveis, pensando na possível causa de seu sucesso:

Bjorn acertou tudo e morreu… Eu não acertei nada e estou aqui esbanjando algo que iria partilhar com ele…

E então, como um raio que caiu em sua cabeça, teve a epifania:

– Claro! Esse era o desafio! Como não pude ver isso antes? – Começou a gargalhar de forma irônica – O gigante estava aqui para proteger o tesouro, com um conhecimento infinito para fazer as perguntas já sabendo das respostas corretas… Qualquer babaca que acertasse uma única pergunta, deixaria claro as intenções de querer entrar e pegar o tesouro. Tão óbvio que ninguém iria imaginar! – gargalhou mais uma vez e, como uma criança na neve, começou a mover os braços e as pernas naquela pilha, fazendo um “anjo”. Encheu o bolso de moedas e pegou algumas coisas que podia carregar em mãos e foi se dirigindo a saída, para colocar na nave aquilo que conseguisse e quando passou a porta o colosso perguntou a ele.

– O que vai fazer com isso?

– Vou usufruir e utilizar ao meu bel prazer, vou me tornar poderoso e rico.

O que o ser albino não sabia, é que aquela pergunta era ainda parte do teste, e antes mesmo que pudesse dar mais um passo, sentiu os frios dedos da máquina o envolverem e o erguerem para a altura dos olhos da besta negra.

Crawler se debatia, tentando se livrar de seu carrasco, mas era inútil, a força que o colosso exercia sobre ele fazia seus ossos trincarem lentamente. Dor e agonia eram as únicas e a últimas coisas que sentia, e quando ficou face a face com o monstro, quando ficou diante daquelas enormes esferas esverdeadas que o observavam, sentiu uma última e enorme pressão do fechar violento dos dedos da besta mecânica sobre sua carne e um barulho de ossos quebrando de uma só vez ecoou pelo ar.

Ítalo Guimarães
Escritor

Amante de cachimbos, poker, blues, rpg e escritor, Ítalo é autor de “Poker com o Diabo” e outro títulos vindouros.

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