sábado , 22 julho 2017
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O Que Não Fazer Ante a Morte – Conto de João Lopes

I

Damasco, a mais bela cidade do oriente, seu perfume, seu sabor; suas ruas povoadas por tamareiras embelezam as vias e fazem da vista de visitantes e habitantes um belo matiz de cores e sabores nunca vistos em nenhum outro lugar do mundo; Damasco era a joia do oriente, o orgulho do império, erguida para a glória de Allah o justo e misericordioso, não havia ali sofrimento, não havia ali dor e desalento, era uma bela cidade, seus palácios, mesquitas, jardins retratavam a beleza e o mistério do oriente, todos ali eram felizes, até mesmo os habitantes da baixa Damasco, nas pobres ruelas onde os menos afortunados se amontoavam, mesmo ali todos eram felizes e bendiziam Allah por poderem morar na Joia do Oriente, mas mesmo a mais fina e rara cidade do império é visitada pela morte, e hoje mais uma vez ela chega, trajando o manto escuro como a noite e trazendo junto de si o frio hálito de mistérios insondáveis, seu olhar trás uma sabedoria profunda reservada somente a Allah, ou talvez nem mesmo ele tenha o conhecimento que a Dama de Negro trás em seu olhar profundo, com sua voz anciã, ela chama pelo seu convidado:

“Hassan, é chegado o momento, teve seu quinhão de vida neste mundo e agora é chegada a hora de iniciar jornada em outras paragens, sob as benções de Allah o justo e misericordioso, vem segura minha mão e segue-me…”.

Hassan ib Haqin, um morador das ruas de Damasco, mas não da bela e perfumada Joia do Oriente, Hassan morava nas ruelas da baixa cidade, a pobre e desafortunada. Vagava pelas ruelas em busca de comida e dinheiro, sempre reclamando de sua sorte, amaldiçoando a tudo e a todos que, ao seu ver, eram mais afortunados que ele; Hassan era o mais infeliz dos homens do mundo e ele sempre culpava a todos de sua infortuna vida e quando a Dama de Negro chegou, Hassan, deitado nas sarjetas das sujas ruelas da baixa Damasco, chorou pela última vez seu triste destino.

“Pobre de mim, o mais desafortunado dos homens viventes sob o céu de Allah o bondoso pai, não fiz fortuna, não tive belas damas a deitarem em meu leito, não leguei ao mundo filhos, e tu agora vens, ceifa minha vida e leva-me como um trapo imundo que deve ser escondido, tivesse eu mais dez anos, ahhh se a fortuna me sorrisse, mas é tarde e tu oh Dama trajando o Negro, vens ceifar-me a pobre existência, maldita sejas tu, maldito sejas Allah o “justo e misericordioso”.”

Ela ouve as queixas sem se alterar, afinal as queixas são as mesmas em qualquer parte que ela vá, em qualquer parte do universo, mas a Dama é caprichosa, e algumas vezes ela gosta de jogar, um jogo que quebra sua rotina de divisora entre a vida e a morte, e hoje ela jogaria com Hassan.

“És um pobre desgraçado, choras que jamais teve sorte e que tudo lhe foi negado, apiedei-me de ti, dar-te ei teus dez anos, terás tudo aquilo que desejas e findados estes dez anos virei te buscar Hassan ib Haqin, até lá viva uma boa vida, deixe seu legado ao mundo e tenha boa fortuna…”

Então ela se vai, um frio vento sopra em sua passagem, e Hassan atordoado vê a ceifadora adentrando a escuridão e desaparecendo rumo às pradarias que só os mortos e os corajosos visitam.

II

Os anos sorriram para Hassan, a fortuna o visitou e deu-lhe bons frutos, ergueu um império comercial que de Damasco percorria toda rota da seda até o extremo oriente, onde o povo adorava a outros deuses, ele comerciava também com o pálido povo adorador de um filho de carpinteiro e esse comércio proporcionou-lhe fortuna e luxos reservados apenas ao califa, seu harém fazia inveja a muitos sultões e seu palácio era quase tão grandioso quanto o do imperador, Hassan ib Haqin, não mais maldizia a sorte, ele conquistara tudo o que ele tinha direito, filhos, belas esposas, grandes palácios e todo poder que o ouro poderia comprar, mas um funesto pensamento o assaltava a mente, seu prazo estava findo, dia mais dia menos a Dama viria busca-lo, era este o trato e ela havia cumprido sua parte, mas Hassan não desejava morrer, havia ainda muito a se fazer, muito a ser conquistado, muito ouro a ganhar, muitas mulheres a amar e em sua mente começou a arquitetar um plano para enganar a Dama de Negro e pôs seu plano em prática.

“Bashir meu filho, o mais dócil e sábio dentre os rebentos que tive, virá esta noite a procurar-me uma Dama, ela dirá que tenho negócios inacabados com ela, uma divida antiga que ainda não estou pronto para saldar, diga a esta Dama que negócios urgentes reclamaram minha presença no extremo oriente e que não sabes quando irei retornar, mas dê a ela tudo que ela lhe pedir, parto hoje a noite rumo à Riad, mas Bashir meu filho não diga a Dama meu destino, apenas que parti em uma longa viagem rumo ao extremo oriente e quando retornar eu a procuro.”

E partiu, o plano era simples, ele iria para Riad e deixaria seu filho no seu lugar, ofereceria seu filho à Dama como um sacrifício, talvez ela se contentasse com o jovem, deixando-o em paz por mais alguns anos, sem remorso algum Hassan deu prosseguimento com seu plano, filhos ele teria mais, sua vida não; e assim partiu rumo à Riad.

Caiu a noite e com ela chegou a Dama trajando o negro, ela chega trazendo ventos gélidos que arrepiam a pele daqueles que o sentem, ela viera buscar Hassan, e adentrou no palácio dele, procurando-o, mas encontrou apenas seu jovem e belo filho, o bondoso e doce Bashir.

“Meu jovem, venho de distantes terras e há muito caminho, busco pelo seu pai, tenho com ele negócios inacabados, antigos negócios firmados antes de sua vinda ao mundo de Allah, mas hoje finda-se o prazo e vim cobrar-lhe a dívida, poderia meu dócil Bashir, fazer a gentileza de chamar vosso pai?”

Por mais que não saibamos quem é, quando a Dama de Negro se aproxima, um sentido natural nos desperta e identificamos sua presença e qual a sua intenção. Bashir ao ouvir a voz profunda e olhar naqueles olhos carregados de visões de todos os seres que já viveram neste mundo, soube quem era a Dama e com todo respeito que lhe era devido e com certo temor lhe disse:

“Saiba ó grandiosa Dama, negócios urgentes solicitaram a presença de meu pai em paragens distantes no extremo oriente, não sei para quais lugares ele se dirigiu e nem qual será o dia de seu retorno, mas ele deixou-me a cargo de satisfazer todos os vossos desejos e orientou-me a dar à senhora tudo que desejar…”

Um olhar de misericórdia e de desencanto despontou na ceifadora e ela com sua voz profunda e sábia dirigiu-se ao jovem e dócil Bashir:

“És jovem e tens uma bela alma meu jovem, serás um homem tocado pela fortuna e dela saberá tirar proveitoso deleite, terás uma bela jornada e quando for tua vez de empreender a última viagem, um bom lugar estará reservado a ti, tem bom coração, és puro e não foi tocado pela maldade e iniquidade deste mundo, serás dela preservado e terás uma longa e fortuita vida, mas devo agora me desculpar meu jovem, já sou muito velha e as vezes a memória me falha, acabo de me lembrar que marquei compromisso com vosso pai não aqui em Damasco e sim no seu destino em Riad, vou rumar para lá e encontra-lo ei. Adeus meu jovem e que os ventos da fortuna e as bênçãos de Allah o justo e misericordioso lhe cubram de alegrias”.

E partiu a Dama, deixando o jovem Bashir olhando-a cruzar o horizonte, indo de encontro ao seu pai, que ele soube neste momento que não mais tornaria a vê-lo com vida.

O Que Não Fazer Ante a Morte” faz parte do projeto literário “Contos da Hora Morta” desenvolvido por João Lopes. Em breve vocês terão mais informações sobre isso, aguardem!

Imagem de capa: Damascus by FoxInShadow

João Lopes
Contista em Rolando Dados
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