sábado , 22 julho 2017
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O Vilarejo – Um Conto de João Lopes

Há, ou melhor, havia nas margens da rodovia que leva à cidade de Cruz das Almas, um vilarejo. Constituído com poucas casas, o vilarejo em si não despertava a atenção de quem passava pela movimentada rodovia, era apenas uma vila pequena e abandonada. Mas para os moradores vizinhos do pequeno povoado a história é diferente e assustadora.

Fundado em mil oitocentos e sessenta e cinco por escravos alforriados, essa pequena vila sem nome, foi o refúgio de muitas pessoas, que no século passado eram considerados párias da sociedade e ali encontraram um lugar onde pudessem morar e tocar suas vidas da maneira que lhes conviessem.

O pobre povoado era principalmente habitado por escravos libertados, velhos, leprosos, e doentes mentais, servia como um depósito de lixo, onde toda escória era jogada e ficava escondida da visão dos saudáveis membros da sociedade cruz-almense.

Abandonados à sua própria sorte, os moradores da vila tinham regras e leis particulares e não toleravam nenhuma interferência das autoridades externas, já que eles não eram aceitos pela sociedade, eles também não teriam obrigação nenhuma para com a comunidade de Cruz das Almas e assim os habitantes do povoado proscrito seguiam com suas vidas.

A convivência era pacífica entre os moradores da cidadezinha e os vizinhos mais próximos, ambos cuidando de suas vidas e afazeres sem interferirem nos assuntos uns dos outros.

Mas essa relação pacata ficou abalada em meados dos anos vinte, quando um dos netos do fundador do povoado se envolveu em uma briga de bar com um capanga de uma fazenda vizinha ao vilarejo, o trabalhador, que estava armado, matou o rapaz ali mesmo no bar sem se importar com os frequentadores do boteco.

Os moradores do povoado, ao saberem do ocorrido, exigiram das autoridades punição imediata do responsável pelo assassinato, mas não foram atendidos, o que serviu para aumentar a tensão entre os envolvidos.

Não há muitas informações sobre o que aconteceu após esse assassinato, apenas alguns relatos que dão conta de que o capanga que matou o jovem a sangue frio, foi encontrado morto sete dias após o acontecido e os que encontraram o corpo disseram que o defunto apresentava em seu rosto um olhar de pavor. As autoridades da época investigaram o caso, mas não encontraram nada que pudessem relacionar como um ato de vingança dos habitantes do povoado contra o trabalhador da fazenda.

As coisas a partir deste momento se tornaram insuportáveis para os moradores próximos ao vilarejo, constantemente a polícia era chamada para conter brigas entre os fazendeiros e os habitantes da cidadezinha, e também havia denúncias de celebrações satânicas realizadas na vila, mas nada era comprovado pelas autoridades.

A polícia somente pode agir com mais rigor quando no fim dos anos vinte e início dos anos trinta, os gados das fazendas vizinhas à vila começaram a ser encontrados mortos e totalmente sem sangue. Essas mortes eram atribuídas aos moradores da pequena vila e aos seus rituais satânicos. Muitos moradores daquela pequena cidade foram presos e alguns, mortos pela ação da polícia fazendo com que o culto satânico fosse desmantelado, ou pelo menos assim pensavam as autoridades locais.

Não houve mais incidentes após o narrado, e os moradores do vilarejo e os seus vizinhos seguiram com suas vidas. Vez ou outra os fazendeiros locais relatavam que um gado fora roubado ou que barulhos e gritos estranhos eram ouvidos na direção da vila, mas nada que realmente pudesse chamar a atenção da polícia.

Mas a situação mudou drasticamente em mil novecentos e cinquenta e seis, quando os fazendeiros mais próximos ao povoado, incomodados com as mortes de seus gados, se uniram para acabar com a pequena vila, mas ao contrário do que ocorrera anos atrás, o resultado não foi satisfatório desta vez.

Entre fatos e acontecimentos, o que realmente aconteceu na noite do confronto fatídico ficou perdido e os que presenciaram o sucedido se recusam a falar, seja por medo ou por simples receio de serem taxados de loucos. O que se sabe é que no exato momento que os fazendeiros chegaram à vila com seus capangas bem armados, eles foram recebidos por um violento grupo de moradores que os atacaram como se não sentissem dor ou não se importassem com suas vidas. Segundo algumas poucas informações, os habitantes do povoado apresentavam expressões animalescas e um comportamento bestial, muitos até, possuíam uma força incrível e totalmente incompatível com seus corpos esquálidos e mirrados.

Algumas testemunhas do enfrentamento sussurram que os moradores da pequena cidade estavam com seus corpos cobertos de sangue, possuíam um olhar quase demoníaco, como se possuídos por alguma entidade poderosa, a ferocidade com que atacavam seus oponentes causava espanto e medo em todos que estavam presenciando aquele combate. Foi uma luta dura, porém os fazendeiros e seus capangas levaram a melhor, pois estavam bem armados, mas os moradores do vilarejo não se deram por vencidos facilmente, lutando com unhas e dentes para proteger uma pequena estatueta situada em uma praça no meio da pequena cidade.

Os últimos sobreviventes do terrível confronto se uniram em torno dessa estatueta e, como se estivessem tomados por uma força diabólica, partiram para cima de seus inimigos, que assustados atiraram a esmo matando todos os que ainda insistiam em ataca-los. Mas a vitória dos fazendeiros contra os moradores do pobre vilarejo foi conquistada a um alto preço, tive a oportunidade de ouvir de um dos capangas que participou da pequena guerra, que após o último dos sobreviventes ter sucumbido, uma estranha névoa se formou em torno de todo o povoado, era um nevoeiro denso e frio, vozes estranhas, gritos e sussurros saiam dessa neblina, a bruma perdurou por alguns minutos apenas, mas tempo suficiente para que ele e seus colegas testemunhassem a pequena estatueta, que era protegida pelos moradores do vilarejo, se transformar em uma forma grotesca e demoníaca emitindo urros terríveis que enlouqueceu a todos os que o ouviram.

A Estátua do VilarejoO velho senhor, depois disso, alega não se lembrar de mais nada, apenas que acordou após um tempo, ensopado de sangue e que muitos de seus colegas estavam vagando pelo povoado completamente desnorteados. Após esse confronto, o vilarejo foi abandonado por completo e passou a ser evitado por todos que ficaram sabendo da história, ninguém mais se atreveu a morar naquele lugar e mesmo aqueles que se arriscam a entrar na pequena vila narram que no final da tarde, um nevoeiro denso se forma e vozes estranhas podem ser ouvidas e a única testemunha do que aconteceu ali anos atrás, é uma grotesca e disforme estatueta de um ser alado, cravada em um tronco de madeira enegrecido.

Imagem de capa: speed art on Ipad Old Vilage by RaZuMinc

Estátua do Vilarejo: Juão Lucas

João Lopes
Contista em Rolando Dados
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