quinta-feira , 14 dezembro 2017
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Teste de Sobrevivência: Florestas

Olá! Magohuman aqui, e pro tema de hoje abordaremos a sobrevivência em locais perigosos e como aprofundar sua interpretação.

Grande parte dos RPGs se passam em um mundo medieval ou de fantasia, onde é muito comum encontrar locais remotos e perigosos, como desertos, montanhas, cavernas, selvas, florestas, pântanos e outros.

Cada região traz consigo seu próprio bioma, seus próprios desafios e belezas, mas é muito comum que esses locais não tenham tanta atenção. A maioria simplesmente só complementa o cenário, fazendo alguns encontros aleatórios com orcs, goblins ou kobolds e acaba ignorando os perigos que essas áreas escondem. Mas o que acontece se o mestre decide utilizá-los?

Em muitas campanhas, principalmente um RPG caseiro criado por um amigo, é bem comum ver a vantagem da sobrevivência. Às vezes vem dividida em diferentes terrenos e, mais comum ainda, é o fato de que essas habilidades acabam não sendo tão utilizadas, ou funcionam só como um simples teste e pronto.

Mas acredite em mim quando digo que aquela missão de nível alto não é perigosa apenas porque tem um inimigo forte no final, esse inimigo pode estar em uma tumba subterrânea no meio de um pântano cercado por uma floresta selvagem, cheia de criaturas à espreita esperando pela primeira oportunidade de atacar ou roubar os personagens!

Os jogadores podem se perder, serem envenenados, cair em uma armadilha natural (desmoronamento de terra, comida alucinógena, fadiga, desidratação, etc.), encontrarem ladrões e podem acabar morrendo antes mesmo de chegar ao templo perdido! O mundo é um lugar cruel, e ele não vai te perdoar!

Florestas

você sabe como é uma floresta? Não aquela da TV, você realmente sabe como é uma? Você já esteve no meio de uma FLORESTA? Caso a resposta seja não, eu vou detalhar um pouco baseado na minha experiência pessoal em forma de narrativa fantasiosa! Você passará por uma floresta na pele de um grupo de 3 aventureiros, e sob a perspectiva de um deles.

Nota: Caso não queria ler a história, só desce até o carinha desidratado


The lonely mountain – The Hobbit

Saímos da cidade principal dos anões, devemos levar o orbe mágico para o condado dos humanos, lá eles podem saber do que se trata toda essa confusão mágica. Partimos pela manhã, fomos  com a carruagem até a beirada da floresta maldita, onde continuamos a pé, pois suas árvores largas deixavam um caminho sinuoso, apertado de mais para os cavalos. Andando por algumas horas, sinto meus pés me matando, é impossível continuar esse caminho trajando uma armadura, então tive que retirar a minha para continuar prosseguindo.

Andamos por cerca de 5 horas, estamos exaustos, e a cor esmeralda da floresta aos poucos vai sumindo, dando lugar para uma mistura de laranja com amarelo que vem dos céus, em alguns momentos é possível olhar para o céu de uma perspectiva que as árvores não atrapalhem, o por do sol aqui é muito triste, ele traz consigo uma melancolia inigualável, e o silêncio emanado das profundezas desse amontoado de madeira só piora a sensação de vazio. Logo, aquele laranja começa a sumir, e as coisas vão perdendo cores, já não consigo enxergar tão bem floresta a dentro, encontramos um pequeno sítio em meio as árvores, é grande o bastante para levantar a tenda e acender uma fogueira.

Eu sempre vivi na cidade, atravessar a floresta não está sendo fácil, a noite aqui é tão escura, eu não vejo nada que possa estar a mais de 2 metros de distância, isso é assustador! Nossa comida é bem pouco, temos que racionar para não correr o risco de faltar, o gélido vento faz questão de chacoalhar bruscamente as folhas e galhos, criando uma sinfonia horripilante, me da a sensação de que algo está á espreita, esperando pelo momento certo para avançar e nos devorar até os ossos! Decidimos revezar a guarda e deixar a fogueira acessa devido ao imenso frio que aqui faz, é melhor não dar chance pro azar. Espero estarmos fazendo a coisa certa!

A noite foi assustadora, mas nada aconteceu, depois de arrumarmos nossos itens, continuamos em direção ao condado. Devido a urgência na entrega, tivemos que cortar caminho pela floresta, fora que os bardos que chegaram na cidade pouco antes de sairmos, relataram um amontoado de pedras que cobria o único caminho seguro até o condado, me pergunto o que pode ter acontecido.

“dark forest by VityaR8”

Já se passaram horas, continuamos seguindo em frente, mas eu vejo as mesmas árvores e arbustos, parece que estamos andando em círculos! Sinto como se tivesse acabado de entrar aqui, se eu retornasse talvez saísse na cidade dos anões de novo, é claro que deve ser só um truque da minha mente, mas aquela pedra amassada no chão me é familiar.

A noite chega, encontramos um javali selvagem no meio do caminho, e devido a isso hoje teremos carne! Mas não foi de graça, nosso paladino se feriu me protegendo de uma investida feroz daquele animal irracional, pude realizar os primeiros socorros, mas é só um remendo, espero que nada de pior aconteça.

Já se passaram 5 dias, estamos cansados, parece que estou preso em um ciclo sem fim, andando, andando e andando, essa floresta não termina nunca! Quem dera fosse só isso, devemos estar perto do fim, pois dizem as lendas que toda magia emanada da cidade corrompeu a natureza próxima, transformando a vívida floresta em um tipo de selva amaldiçoada, aqui as folhas são cinzas, isso quando há folhas! Galhos secos e frágeis por todo o local, o chão está coberto por uma fina camada de lama, muito escorregadio. Continuando o caminho, a floresta está cada vez mais estranha, posso sentir uma energia maligna cobrindo esse local, a sensação da morte nos paira como se estivéssemos sendo guiados para o nosso fim, a floresta está morta, parece que a própria natureza desistiu desse lugar, e quando menos estávamos esperando o crepúsculo chega para cobrir toda vida como um véu posto sobre uma criança em seu berço, tão inocente, sem saber dos perigos que traz consigo. Estou com medo, é possível ouvir estranhos barulhos nas madrugadas da floresta, corujas, cobras, folhas, bolhas de lama, mas espero que nada aconteça

Merda, fui picado por uma cobra, sinto minha energia vital se esvaindo, nosso paladino está muito exausto, sem tempo para descansar ele está sentindo fortemente a falta de água e comida, nosso ranger diz que estamos chegando, ele também está cansado, suas mãos sangram, estão surradas pela pressão da corda ao puxar aquele velho arco. 

Ao amanhecer, estamos acabados, deixamos parte dos itens que trouxemos, estamos sem condições de carrega-los. Seguimos por mais algum trecho, até que encontramos um grupo de criaturas grandes e grotescas… orcs! O que estariam fazendo ali? O combate foi cruel, tomados pela exaustão, nossos movimentos eram leves e previsíveis, as raízes podres saltando da terra dificultavam nossos passos, e a lama só piorava a situação. Sorte que nossos inimigos utilizavam armas velhas e desgastada, uma até se partiu quando o paladino aparou um dos golpes. Se essas criaturas fossem menos burras, teriam usado as árvores a seu favor e nos flanqueados, aqui na floresta é impossível prever de onde o inimigo virá. Quase perdemos essa luta, utilizei minhas últimas energias para fazer uma bolha de ar que explodiu como uma pressão ensurdecedora, que atordoou nossos inimigos por tempo o suficiente para que o ranger terminasse o serviço, agora estou sem mana, minha pele está esverdeada, minha visão turva, não vou durar muito tempo.

No outro dia, uma besta nascidas das profundezas do inferno nos encontrou em meio a toda aquela mata, sem energia corremos, deixamos TUDO para trás, TUDO, mas ela era mais rápida, estava sem seu habitat! O ataque veio pela madrugada, corremos até amanhecer, eu fique pra trás, pensei que ia morrer, quando aquele feroz ímpeto estava prestes a me acertar, o paladino pulou na frente e segurou o golpe! Disse para continuarmos a missão, que muita coisa estava em jogo! Fugimos, mas ele ficou para distrair a besta, eu não tenho esperança de ve-lo novamente… meu amigo, meu salvador,  seu corpo profanado no meio do nada! Eu sinto muito.

“Dehydration – Magic of the Gathering / Wizards of the Coast”

Chega, é o fim, eu não aguento, estou sozinho! Enquanto descíamos uma perigoso desfiladeiro na bandeira de um rio, parte do solo se desprendeu, levando consigo o ranger, que sem energia não pode fazer nada a não ser cair, eu nem ao menos pude ouvir seus gritos! Ele caiu de uma altura enorme, em um pequeno riacho, sujo como o carvão, e ao tocar a água, pude ver enormes répteis pulando no rio para degustar um delicioso petisco, pelo tamanho e ferocidade daquelas bestas, só me resta esperar meu fim. O sol queimava cada vez mais, sem força para andar, ou ao menos falar, fechei os olhos, reclinado sobre algumas raízes em uma grande árvore de copas altas, aceitei minha morte, respirei fundo e entrei em sono profundo.

Uma luz forte nos meus olhos, eu de repente levanto, estava em uma cama, dentro de uma sala grande e luxuosa, meu corpo enfaixado. Ao meu lado, água e comida. Será que morri e fui pro céu? A luz entrava por grandes janelas, que na verdade eram buracos feitos na parede dessa construção em madeira, e a porta do local era grande e com um batente dourado, algumas inscrição, parece que estava escrito “Ezfg….” Ah, é elfico! Já imagino o que pode ter acontecido! Reuni minhas forças, fui até a porta e abri, pensei que estava bem, mas a força que usei pra isso me consumiu completamente, perdi o controle de minhas pernas e meu corpo caía, quando alguém me segurou, quando olhei, uma jovem elfa com longos e trançados cabelos dourados, sua pele lisa e brilhante, realçavam seus olhos verdes como a mais preciosa das esmeraldas. Ela me disse alguma coisa, provavelmente em elfico, eu conheço um pouco do idioma, mas não o bastante para me comunicar, mas espero que ela fale meu idioma. Com minhas últimas energias, sussurrei “con..da..do… pe..dra..” a minha voz foi se apagando, minha mente adormecia, minhas pálpebras começaram a pesa, meu pensamento estava lento, somente eu conseguia escutar, até que ficou tudo escuro de novo.”


Como puderam ver, nosso aventureiro perdeu 2 companheiros na viagem, e sobreviveu por pouco! Fazer aquele personagem com perícia só em ataque pode custa caro, você é invencível em combate, mas nem tudo se resolve na porrada. Vocês não vão conseguir salvar a filha do taverneiro do culto satânico dos homens serpentes se vocês não conseguirem atravessar a floresta para chegar no culto satânico dos homens serpentes!

Aí você e seu grupo vão morrer e o culto satânico dos homens serpentes vai completar o ritual sacrificando a filha do taverneiro, trazendo a serpente primordial do Éden para a Terra. Então o culto satânico dos homens serpentes vai se expandir, criar uma nova ordem mundial conhecida como culto satânico dos homens serpentes, onde eles terão controle e influência em toda política, saúde e educação, então o culto satânico dos homens serpentes poderá enfim instalar o socialismo destruir o planeta e matar a tartaruga gigante que carrega o mundo nas costas como um sacrifício para uma divindade maior, que irá recriar o planeta onde não haverá humanos, todos serão homens serpentes. Nesse mundo provavelmente existirá o culto satânico dos homens não serpentes, que vão fazer a mesma coisa, ao menos que seu grupo, de homens serpentes, tenham a skill de sobrevivência na floresta e assim podem impedi-los e resgatar a filha do jiboia. (lovecraft deve ter se revirado no caixão agora)

Tá, e como coloco isso no jogo?

Assim como qualquer outra ceita, o culto satânico dos homens serpentes pode ser facilmente adaptado para o jogo, os cultistas devem ser fracos e ter skill de veneno… hahaha brincadeira! peguei vocês né?

As viagens não precisam ser tão longas, a menos que essa seja a intenção, claro, e cada dia deve ocorrer alguns eventos, que pode ser nada, até o encontro com um dragão ou um artefato místico!

Um personagem que passar no teste, fica isento dos outros testes até a viagem acabar, ou durante x dias. Um personagem que falhar terá que fazer outro teste no dia seguinte, cada falha revela um acontecimento diferente. O mestre pode optar por deixar o teste para quem tem mais chance de sucesso nesse teste, caso um dos personagens tenham sobrevivência.

Vamos colocar os desafios como por exemplo: role 1D6…

  1. Você escorregou e caiu de uma parte elevada, perdendo X pontos de vida;
  2. Você foi atacado sorrateiramente por alguma criatura venenosa, que após lhe aplicar o veneno fugiu. Teste de vitalidade para não ficar envenenado;
  3. O barulho do grupo/seu atraiu a atenção de alguma criatura, ou um grupo delas, para o local de vocês. Preparem-se para o combate!;
  4. Você contraiu alguma doença nessa floresta, e está enfraquecido/doente;
  5. Ao passar por um desfiladeiro, você escorrega e se segura, mas deixa cair algum item que estava com contigo, de preferência aquela espada lendária que eu te dei mas que depois vi que era muito forte;
  6. De alguma maneira você quebrou um braço ou uma perna em um acidente.

Irei usar o GURPS (by Steve Jackson Games) para exemplificar, já que meus posts serão focados nesse sistema. Mas sinta-se livre para adaptar da maneira que quiser!

Vamos supor que o grupo vá fazer uma viagem de 162 km. Eles devem comprar o suprimento necessário e calcular o deslocamento básico (Velocidade Básica – carga). Como o grupo é tão rápido quanto o seu membro mais lento, eu serei o atrasão e tenho 10 em todos os atributos. Teria um deslocamento básico [(HT+DX)/4] de 5m/s.

Como eu sou um poderoso bárbaro, estou levando 5 espadas, 7 machados, 4 espadas de duas mãos e 1 armadura de escama de dragão, cujo peso soma 30KG. Como esse peso que estou levando é igual á 3 vezes minha ST, estou levando uma carga média, então sou penalizado em -2 no movimento. Meu deslocamento então é de 3m/s ou 10,8km/h!!!

Se eu andasse 5 horas, em 3 dias eu chegaria no meu destino. Se eu estivesse na floresta, seriam 3 dias de viagem, que podiam ser 3 testes ou 1 caso eu passe de primeira. Para transformar de m/s em km/h, é só multiplicar por 3,6… É, GURPS tem dessas, tenha uma calculadora em mãos hahaha.

“Bear Grylls”

E no GURPS existe um limite de pessoas que um personagem com sobrevivência consegue cuidar, passando disso começa a dificultar. Os testes podem ser feitos apenas com o personagem de maior valor ou caso tenha alguém com essa habilidade no seu grupo, os outros recebem um bônus no teste de sobrevivência deles, que é cumulativo para cada um com esse bônus.

Bom, por hoje é só. Espero que as florestas fiquem mais mortais e jovens aventureiros, que nunca tenham adentrado esse terreno, passem a temê-lo e buscar alguém para guiá-los ao invés de entrar de cabeça e sair na voadora, como de costume.

Adapte os dados da melhor maneira que achar, coloque mais desafios, se for no D20 você pode até colocar uma falha crítica! Se precisar de mais referência sobre o que é uma floresta, procura pelo programa “À Prova de Tudo” com o ilustre Birl Bear Grylls. Tem, inclusive, um episódio na Amazônia, muito bom!

Lembre-se sempre, qualquer dúvida entre em contato pelo Caralivro (a.k.a. Facebook), ou mande uma mensagem pelo formulário de Contato. Você também pode deixar dicas, sugestões e críticas.

Caso queira algum assunto específico do GURPS, é só pedir, eu prometo trarei tudo dentro de 4 anos ou mais.

Uma vez eu tirei 1 no teste de respirar, acho que foi parecido com isso.

Imagem de Capa: Forest Sketch by STYROFOAMTEETH

magohuman

Enquanto fazia uma viagem de navio com meu pai, um trágico acidente fez com que o navio naufragasse, eu fui o único sobrevivente dele, nadei até uma pequena ilha próxima onde vivi o inferno por 5 anos, até que pudesse ser resgatado por um navio pesqueiro. Agora, de volto á minha antiga cidade, usarei o que aprendi naquela ilha para trazer justiça á este mundo


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