sábado , 22 julho 2017
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A Última Canção

A Última Canção – Um Conto de Jeferson Lança

Estava um homem a caminhar em mais uma rua principal de um vilarejo qualquer durante a noite. Todos naquela região eram iguais. Havia a pequena mercearia com toda sorte de alimentos e produtos para os locais. Os itens mais caros, nem sempre os melhores, eram para os viajantes. Depois vinha a ferraria onde de dia se ouviria o clamor do malho no metal. O homem duvidava que o ferreiro local soubesse o que era um machado de batalha, ou mesmo um simples meio-elmo. O homem tinha certeza que ele era um especialista em fazer enxadas, foices e pás para a labuta no campo. Depois seguindo a ínfima fila de pequenas casas muito pobres estava o que o homem procurava. O coração de qualquer lugar esquecido como aquele. Estava ali a taverna. Sorri por dentro quando percebi o que o homem queria fazer. Sorri, pois diferente das milhares de histórias que eu conhecia aquela não começaria em uma taverna, e sim terminaria nela.

Tive uma sensação estranha naquele lugar. Queria presenciar com detalhes os passos daquele homem. Ele tirou o capuz da sua capa e ajeitou apressadamente os cabelos. Queria causar uma boa impressão para quem estava dentro da taverna. Era uma pessoa que trabalhava com isso. Era da empatia das pessoas que tirava o seu sustento. Abriu a porta e como previu vários rostos se viraram para ele. Duas prostitutas que ainda não tinham clientes o receberam com o sorriso doce. Alguns bêbados que se importaram em olhar o fizeram por poucos segundos. E voltaram a conversar com os seus copos e seus demônios. O único que realmente prestou atenção nele estava atrás do grande balcão, e não poderia ser ninguém menos que o dono do estabelecimento. Foi para lá que o homem se dirigiu.

Vendo a aproximação do homem o dono da taverna parou de flertar com a jovem camponesa ao seu lado. A garota então retirou os seios fartos de cima do balcão e partiu para atender mais um cliente. Pelo semblante frustrado do dono o homem percebeu que, naquela noite, o dono não faria aqueles seios de travesseiro. Quando chegou perto o bastante o homem enfim se apresentou e disse:

– Nas minhas costas não trago arma alguma, senhor. Trago meu alaúde, pois sou Algur, um simples bardo, ao seu dispor.

O dono com a cara de poucos amigos olhou então para uma haste que saia das costas de Algur e apontando disse:

– Tem certeza, filho? Isso nas suas costas parece uma boa lança.

Levando as mãos para as costas Algur tirou seu alaúde. A haste era mesmo o braço do seu instrumento, bem maior que o da média. Certamente uma peça única e cara. O bardo não era tão simples quanto dizia. O dono da taverna não percebeu isso, deu de ombros e finalizou dizendo apressadamente:

– Certo, certo. Você vai fazer sua apresentação e me dar a metade. Sem negociações. Ainda te dou um bom lugar nos fundos pra passar a noite.

Assim que ouviu isso Algur deu um meio sorriso. Uma pequena parte dele era de alguma piada que só ele entendia. A outra parte do sorriso carregava uma tristeza, pelo visto, bem recente para ele. Ele balançou a cabeça concordando e antes de partir para o palco disse:

– Suas palavras me fizeram lembrar de um velho amigo. Obrigado.

Vi que o dono ia perguntar alguma coisa, mas como Algur já se afastava rapidamente ele ignorou os seus instintos e se calou. Um erro sem dúvida. Não saberia as reais intenções do bardo como eu sabia. Algur se dirigiu ao diminuto palco, praticamente uma mesa um pouco maior com um banquinho encima. Conforme os desatentos iam percebendo aquela nova figura as conversas iam diminuindo. Aquelas vinte e poucas pessoas então se alegraram e gritaram mais que antes, ao perceberem o estranho alaúde nas mãos do homem. O bardo se acomodou no seu lugar e com várias passadas e gestos rápidos das suas mãos afinou o instrumento. Enfim olhou toda a sua grandiosa platéia e se pronunciou:

– Trago pra vocês hoje a chance de escutar as mais belas canções. – Algur fez um gesto amplo com as mãos apontando para todos os presentes, mas demorou o seu olhar um pouco na mesma garota que estava com o dono da taverna e continuou. – A chance de dançar com quem realmente gosta de você. – O dono percebeu a jogada dele e sorriu. O bardo piscou um dos seus olhos de forma marota para ele e enfim começou seu espetáculo. O último sem sombra de dúvida.

Iniciou a apresentação com o ritmo frenético de ‘As primeiras flores’. Uma canção comum tocada nos festivais de primavera reino afora. Sua melodia rápida e sempre crescente inflamava as emoções da platéia e servia para descontrair todos. A canção seguinte foi um pedido em uníssono da platéia. ‘Ladrão de patos’ conta a divertida história de um larápio que tira a sorte grande e acha uma pata capaz de colocar diamantes. No meu caso achei divertido como histórias assim resistiam a opressão do tempo. O último animal dessa espécie havia morrido 330 anos atrás. Depois foi a vez de ‘Sally dos cabelos rubros’. Os homens se perderam pensando como eram as curvas do corpo da moça, que a música insistia em descrever. As mulheres gostavam mais da segunda parte da canção, que descrevia o amante de Sally.

Tendo todos ali ao seu dispor agora, Algur tocou mais algumas músicas. Depois suavemente foi dando os últimos acordes e por fim ficou em silêncio. As pessoas gritaram mais uma dezena de nomes de músicas e o bardo nada fez. Elas insistiram e tudo o que o bardo fez foi apoiar seu alaúde de braço longo no chão, olhar solenemente para elas e com gestos da mão esquerda pedir que educadamente se calassem. Tudo que se ouvia agora era a suave respiração de todos os presentes e o murmúrio do vento lá fora. Finalmente Algur saiu de seu torpor e falou:

– Sim, sim. Damas e cavalheiros esta é definitivamente a última canção. Obrigado por me ajudarem nesse silêncio. Quis isso para que esta última música fosse a que se enraizasse melhor na memória de vocês. E que a pessoa para quem dedico ela também fosse lembrada da mesma forma. Essa é minha homenagem para você Rapher. Meu amigo, que agora vive além do horizonte… No reino dos mortos…

Antes de seguir com esta história vou revelar o jogo que comecei com vocês lá encima. Me desculpem. Para alguém que tem muito tempo como eu é preciso achar formas divertidas de andar ao lado dele. Coloquei uma palavra de duas letras seguida de outra palavra com mais sete letras. Neste parágrafo está a primeira letra de uma palavra com quatro letras. A seguir você tem que encontrar uma palavra de duas letras, outra de oito letras e a última palavra tem cinco letras. Basta olhar a primeira palavra dos parágrafos onde falo e vão saber que letra pegar. Podemos seguir?

No momento que as primeiras notas tocaram a minha mente eu soube o que realmente o bardo queria. Essa sim era uma canção especial. Percebi que apenas um senhor bem velho reconheceu ela. Escondida nas tradições que pouco a pouco viravam pó, aquela canção servia para ajudar na travessia das almas. Algur era um excelente amigo. Ajudar Rapher daquela forma era uma prova de amizade que não via há muito tempo.

Impondo uma miríade de notas pesadas, graves e outras mais agudas o bardo mostrou para que servia aquele braço maior do seu instrumento. As notas que saiam dali não eram meramente ouvidas. Elas afetavam os outros sentidos também. Aquele som ativava o tato das pessoas e elas podiam sentir algo nas suas espinhas que causava arrepios. Transportava a visão delas para um tempo onde a magia era mais forte no mundo. Havia ali poucas pessoas mais sensíveis ao outro lado da realidade. Elas realmente viam o som que saia do alaúde virar uma fumaça prateada e envolver as pessoas. Aquilo fazia um pouco da energia daquelas pessoas ir direto para a alma vagante de Rapher. Assim ela ficaria mais visível para meus filhos e filhas. A canção ‘Viaje nas asas da Morte’ começa assim:

“Com asas negras e fortes a coruja-guia subiu aos céus e chamou alguém.
Seu grito acordou a alma perdida que não sabia pra onde ir.
A alma subiu para as estrelas envolta na negra penugem.
E acenou para aqueles que amava antes de partir.”

“A segunda coruja rasgou os céus e acompanhou sua irmã e a alma.
Ela falou sobre as leis do julgamento e as consequências.
O justo vai ter o merecido e a felicidade que ele clama.
O impuro será absolvido depois de muitas penitências.”

“Nós somos as asas da morte e suas mensageiras.
Mas nossa asa não é igual a escura noite.
As pontas delas são a luz das almas companheiras.
Que ao fim descansarão silenciosamente.”

“Cabe a nós também alertar os desprevenidos.
Avisar que seu tempo aqui está no fim.
Três pios nossos olhando para você e saberá que devemos ser unidos
E resta apenas esperar o coração deixar de ser carmesim.”

“Do alto infinito e escuro da noite somos servas.
Para lá viajará nas asas da morte.
Não temos o direito de lhe lançar nas trevas.
Mas temos uma chance de lhe tornar importante.”

Me chamo Ewor. Uma das primeiras corujas-guias a serem criadas quando Materyalis ainda era uno. Após guiar milhares de almas recebi a honra de ser a soberana dentre todas as corujas. É tudo o que deve saber, pois essa não é minha história. A canção encantou todos os presentes e eu lá do alto do escuro céu pude ver toda a energia gerada naquele ato, se dirigir para um campo de batalha. Duas das minhas filhas já iam de encontro a um Rapher que chorava de tristeza, em parte por saber que sua jornada terminara. A outra parte do choro continha certa alegria, pois ele sentia a força de Algur lhe ajudando.

Importante ressaltar aqui os últimos momentos de Rapher. Ele não era um cavaleiro comum. Estava protegendo esse mundo de inimigos que vinham do outro lado da realidade. Morreu bravamente impedindo que alguns bartaluns poderosos causassem muito estrago no lado de cá. Mandei minhas filhas carregarem a lâmina que ele usou. Aquela mistura de terra e sangue maldito no aço poderia ser bem usada no futuro. Bartaluns e a minha irmã protetora do Inferlis nunca desistem.

No meio do palco daquela taverna sem fama um bardo fazia sua melhor apresentação. Sua habilidade era muito refinada. Durante as eras muitos tentaram fazer o que ele fazia ali e falhavam. Matavam sua platéia por não saberem controlar aquela magia ancestral. As vezes não matavam dezenas. Às vezes apenas o bardo morria por exceder os limites de seu próprio corpo. No entanto Algur escalonava cada nota com maestria. Maestria essa que chamou minha atenção e tive que me aproximar ainda mais.

Passando pelo véu que separava as realidades minha presença alterou o cenário. Trovões e chuva pintaram os céus no mundo material e nem mesmo assim Algur perdeu o ritmo. Pareceu até mesmo que ele envolveu o som daquela tempestade e a fez trabalhar em favor da sua melodia. Minhas asas colossais traziam um vento imortal para cá e ele também se alegrou em ouvir a música, passando assim a rugir mais forte. Quem realmente era aquele ser?

Então passei a não olhar para o humano a minha frente. Comecei a observar a história daquela alma. O seu passado e como ela caminhou até o presente. Mergulhei nos olhos cor de mel do bardo e vi a centelha de luz que morava ali. A centelha olhou de volta e então entendi tudo.

Reconheci de imediato quem era. Tamanha perfeição na execução da canção só podia ser obra de quem a compôs. Aquele que morava no interior de Algur disse:

– Senhora Ewor, lembra de mim? Hehehehe, claro que lembra. Eu lhe disse que um dia a senhora realmente ouviria a minha melhor apresentação. Agradeço por ter permitido que não fizesse a travessia da última vez.

Escutar aquilo me fez voltar no tempo. Ele era a razão de existir o último verso da canção. Foi ele que há tanto tempo atrás eu decidi tornar importante, por causa de sua maestria musical. Por causa do seu dom de trazer a magia do lado de lá da realidade. Por causa de nunca ter usado o seu poder para beneficiar essa loucura de materja e ter permanecido no caminho do meio.

Navegamos juntos por tudo o que ele fez para chegar até ali. As mil vidas que ele teve para chegar em tamanha perfeição. Naquele dia que eu o tirei do imutável ciclo da vida e da morte, pensei estar cometendo um erro. Aquela alma podia se achar mais importante que as outras e se perder na escuridão. Mas meu julgamento se provou correto e vida após vida ele foi apenas ficando mais iluminado.

Naquela conversa que tivemos ele me contou da vida em que encarnou no corpo de um homem de fé, e pouco a pouco foi aprendendo a ouvir os sons que vinham das camadas superiores da existência.

Inteligentemente ele não quis apenas a beleza do mundo. Encarnou em corpos que sofreram as piores provações. Fome, tristeza e terror. Aprendeu os sons graves da fúria, da injustiça e da loucura. Sempre estava à procura de entender e sentir tudo que fosse possível. Sempre procurou manter a balança da sua existência equilibrada.

Subitamente ele se calou. Tomou fôlego e então começou a falar das vidas em que não evoluiu tanto. Dos tiranos que tiveram vida por causa dele. Das guerras que criou quando sua música inspirava ideais corruptos. Do ódio desmedido que ele libertou algumas vezes.

Neste momento eu intervi. Lhe expliquei que esta parte escura da sua viagem também fazia parte do meu plano. Ele tinha que pertencer a luz e as trevas para encontrar o equilíbrio perfeito. Fechei minhas asas tão escuras quanto o ônix e abracei ele. Confortava ele e eu mesma, pois naquele abraço os medos dele e os meus não conseguiriam penetrar.

Ouvi o estrondo de pés no piso de madeira e o som alto de muitos aplausos. Aquele que agora se chamava Algur terminou o espetáculo e a platéia o aclamava com fervor. Nunca foi a intenção dele ficar muito tempo ali e com muito esforço conseguiu sair pela porta da taverna.

Caminhando sem pressa na chuva ele olhou para mim no céu e sorrindo apontou a placa com o nome da taverna. ‘Ninho da coruja’ era ele. Minha risada fez a chuva se abrandar e agora na garoa e sozinhos, começamos a discutir o que aconteceria dali pra frente.

Testemunhei sua última história. Ele disse que foi a última vida ao lado de Rapher e outras pessoas notáveis, que despertou toda a sua memória das outras vidas. Foi por isso que sua homenagem causou tamanho efeito. Os laços feitos ali tinham um poder que até mesmo eu desconhecia. Nem tudo no universo devia ser visto pela ótica da Morte.

Enfim chegamos ao final dessa jornada. Tudo o que eu falei para o maior dos bardos antes de começarmos outra jornada, agora juntos, foi:

ET VOLAVIT ANIM IN PERENNIS NOCTE

Esta é a frase do nosso jogo. Ela quer dizer: “E voou para a noite sem fim da alma”. Está escrita em uma língua antiga que apenas um reino ainda mantém de certa forma viva. Um reino de mestres fikans, boa comida e povo ardente. Mas essa já é uma outra história…

A Lenda de Materyalis

Jeferson Lança participa do Projeto Literário A Lenda de Materyalis, que já foi abordado aqui e está abrindo novas vagas para mestres e jogadores.

Imagem de capa: Mystical Owl by jubjubjedi

Jeferson Lança